ROSH HASHANÁ
- 19 de set. de 2025
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ROSH HASHANÁ
Refinando Nosso "EU" Interior
“Original” não é uma palavra usada com frequência quando se trata do código da lei judaica. Em geral, a regra tende a ser que 'se é verdade não é novo, e se for novo, não é verdade'. Mas “original” é precisamente a palavra certa a ser usada quando se trata do código de lei de Moisés Maimônides, o Mishnê Torá, especialmente em conexão com Rosh Hashaná. Maimônides foi o primeiro halachista a criar uma obra chamada Hilchot Teshuvá, as Leis do arrependimento. Uma lei em particular (3:4) é impressionante em sua originalidade, bem como em suas implicações para nós.
Começa com estas palavras: “Mesmo sendo o som do shofar em Rosh Hashaná um decreto bíblico, ele contém dentro dele, por outro lado, uma dica (quanto ao seu propósito), a saber: despertem vocês que estão dormindo de seu sono, e vocês letárgicos de sua letargia, examinem suas ações, voltem em arrependimento e lembrem-se do seu Criador, vocês que esqueceram a verdade nas loucuras do tempo e desperdiçam o ano todo em buscas inúteis que não beneficiam nem salvam”.
O que é original sobre isso é que no Talmud, a explicação dada para o shofar é que ele nos lembra, e a D’s, do carneiro oferecido por Abraão, no lugar de seu filho no sacrifício de Isaac. O som do shofar em si, teruá, representa, de acordo com o Talmud, o som das lágrimas. Em outras palavras, enquanto estamos diante de D’s no julgamento, pedimos a Ele que se lembre dos sacrifícios que nós e os nossos antepassados fizemos por amor a Ele. O shofar é o nosso clamor para D-s.
Maimônides diz o contrário. O shofar é o clamor de D’s para nós. É a maneira de D-s dizer o que Ele disse aos primeiros humanos no Jardim do Éden: “Onde você está?” O que você fez com a vida, a liberdade e as bênçãos que Eu lhe dei? Esse é um insight bem particular de Maimônides. O que, no entanto, ele quer dizer com: “Vocês que esquecem a verdade nas loucuras do tempo e desperdiçam o ano inteiro em buscas inúteis que nem beneficiam nem salvam”?
Alguns anos atrás, o brilhante colunista do New York Times, David Brooks, escreveu um best-seller nacional, The Road to Character, no qual ele distingue o que ele chama de currículo das virtudes e discurso fúnebre das virtudes.
O currículo das virtudes inclui o que escrevemos no nosso curriculum vitae, nossas conquistas, nossas qualificações, nossas habilidades. Mas é no discurso fúnebre das virtudes que estarão aquelas pelas quais seremos lembrados. Somos gentis, honestos, fiéis? Quais são os ideais para os quais vivemos e como os vivemos? Essas não são as virtudes que escrevemos no nosso currículo, mas elas fazem toda a diferença para a nossa qualidade de vida e o impacto que temos sobre aqueles que nos rodeiam.
“Nós vivemos”, ele escreve, “em uma sociedade que nos encoraja a pensar sobre como ter uma ótima carreira, mas deixa muitos de nós inarticulados sobre como cultivar a vida interior”. Isso não está a um milhão de milhas do que o Rambam quis dizer quando falou sobre desperdiçar tempo em buscas inúteis que nem beneficiam nem salvam: não que o currículo das virtudes não seja importante, mas não é tão importante. A pressão implacável sobre nós para ter sucesso no mercado comercial nos dá muito pouco tempo e incentivo para desenvolver profundamente o caráter, o qual faz toda a diferença para a qualidade de nossos relacionamentos, de nosso sentido de uma vida significativa e do amor que nós damos e recebemos. É para isso, diz o Rambam, que o shofar está nos chamando.
O que fez o livro de David Brooks especialmente fascinante é a maneira que ele explica como conseguiu ver a distinção entre os dois tipos de virtudes. Ele chegou a isso, diz ele, depois de ler o grande ensaio do Rav Soloveitchik, O Homem de Fé Solitário. Rav Soloveitchik observou que a Torá contém dois relatos sobre a criação do homem, um em Gênesis 1, o outro em Gênesis 2. Gênesis 1 é sobre os seres humanos como parte da ordem natural, o Homo sapiens, a espécie biológica. Gênesis 2 é sobre pessoas individuais, Adão e Eva, capazes de sentir solidão e amor.
A razão pela qual a Torá faz isso, disse o Rav, é porque existem dois elementos básicos que nos fazem o que somos. Há Adão 1, “homem majestoso”, o animal falante e construtor, a maior de todas as formas de vida, capaz de realizar conquistas científicas e tecnológicas monumentais. Mas há também Adão 2, a personalidade da “aliança” definida por nossos relacionamentos com outras pessoas e com D’s. O homem majestoso tem o currículo das virtudes, mas a Torá - a vida da aliança – prefere as virtudes que seriam ditas em uma homenagem fúnebre: humildade, gratidão, integridade, alegria, vontade de servir e fazer sacrifícios em nome de altos ideais. Trata-se de “caridade, amor e redenção”.
Ainda hoje, diz Brooks, você sabe quando você está na presença de alguém que tem as virtudes que seriam ditas em uma homenagem. Essas pessoas “parecem possuir uma coesão interior impressionante”. Elas não levam “vidas fragmentadas e dispersas”. Elas são firmes, elas têm raízes, elas sabem o que importa no longo prazo, e podem distinguir entre a música e o barulho. O resultado é que elas não são “destruídas por tempestades”, nem “se desintegram na adversidade”. Elas irradiam, ele diz, “uma espécie de alegria moral”. Elas não são vencidas pelo fracasso ou feridas pelas críticas. Elas têm uma enorme força interna e fazem uma diferença real para aqueles cujas vidas elas tocam.
Isso define o cheshbon ha-nafesh, a busca de si mesmo e a auto avaliação que deveriam instruir nossos pensamentos em Rosh Hashaná, Yom Kipur e os dias entre eles. É para isso, de acordo com Maimônides, que o shofar está nos chamando. E isso, certamente, é uma mensagem para o nosso tempo.
Nenhum de nós, como indivíduos, pode acabar com o aquecimento global, trazer a paz ao Oriente Médio, ou trazer justiça e compaixão para o cenário internacional. Mas podemos, silenciosamente, desenvolver os traços fortes de caráter que farão a diferença não somente para nossas próprias vidas, mas para aqueles que nos rodeiam. Isso, de acordo com o Rambam (em seu Oito Capítulos) é o que é o judaísmo, o refinamento do caráter através dos atos repetidos que chamamos de mitzvót e do modo de vida que chamamos halachá. É aí que o judaísmo é tão rico e transformador, e onde a cultura secular contemporânea, com seu foco em externalidades e no currículo de virtudes, é muitas vezes, e tristemente, desprovida.
Vamos tentar neste próximo ano desenvolver, através da nossa vida judaica, essas qualidades de caráter que realmente melhoram a vida e que vêm de um sentido da Shechiná em nossas vidas. Os sábios entenderam, ninguém mais do que Maimônides, que a melhor maneira de mudar o mundo é mudando a nós mesmos. É para isso que o shofar está nos chamando: cultivar a vida interior para que, através da humildade, do perdão e do amor, nos tornemos veículos através dos quais as bênçãos de D’s fluem. Vamos aprender a irradiar alegria moral.
Aproveito essa oportunidade para desejar a você e a toda a sua família um Shaná tová umetuká.
Rabino Jonathan Sacks zt'l
