- 13 de jan.
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VAERÁ
De Piolhos e Homens
A poeira da terra se transformou em piolhos por todo o Egito. Os magos tentaram produzir piolhos com sua feitiçaria, mas não conseguiram. Enquanto isso, os piolhos continuavam a infestar pessoas e animais.
“Este”, disseram os magos ao Faraó, “é o dedo de D-s”. Mas o coração de Faraó estava endurecido e – como o Senhor havia predito – ele não lhes deu ouvidos. Êxodo 8:12-15
Tem-se dado pouca atenção ao uso do humor na Torá. Sua forma mais importante é o uso da sátira para zombar das pretensões dos seres humanos que pensam poder imitar a D-s. Uma coisa faz D-s rir: ver a humanidade tentando desafiar o céu.
Os reis da terra se levantam, e os governantes se reúnem contra o Senhor e o seu ungido. “Vamos romper as nossas correntes”, dizem eles, “e nos livrar das suas amarras”. Aquele que está assentado no céu ri; D-s zomba deles. Salmo 2:2-4
Há um exemplo maravilhoso na história da Torre de Babel. O povo da planície de Sinar decide construir uma cidade com uma torre que “alcançará o céu”. Este é um ato de desafio contra a ordem divinamente estabelecida (“Os céus são os céus de D-s; a terra, Ele a deu aos filhos dos homens”). A Torá então diz: “Mas D-s desceu para ver a cidade e a torre...” (Gênesis 11:5) Lá na Terra, os construtores pensavam que sua torre alcançaria o céu. Do ponto de vista celestial, porém, ela era tão minúscula que D-s teve que “descer” para vê-la.
A sátira é essencial para compreender pelo menos algumas das pragas. Os egípcios cultuavam uma multiplicidade de deuses, a maioria dos quais representava forças da natureza. Por meio de suas "artes secretas", os magos acreditavam poder controlar essas forças. A magia é o equivalente, em uma era de mitos, à tecnologia em uma era de ciência. Uma civilização que acredita poder manipular os deuses acredita, da mesma forma, que pode exercer coerção sobre os seres humanos. Em tal cultura, o conceito de liberdade é desconhecido.
As pragas não tinham como objetivo apenas punir o faraó e seu povo pelo tratamento cruel dispensado aos israelitas, mas também mostrar-lhes a impotência dos deuses em que acreditavam (“Executarei juízo sobre todos os deuses do Egito: Eu sou D-s”, Êxodo 12:12). Isso explica a primeira e a última das nove pragas anteriores à morte dos primogênitos. A primeira envolveu o Nilo. A nona foi a praga das trevas. O Nilo era venerado como fonte de fertilidade em uma região desértica. O sol era visto como o maior dos deuses, Rá (e o faraó era considerado seu filho). As trevas representavam o eclipse solar, demonstrando que nem mesmo o maior dos deuses egípcios podia fazer nada diante do verdadeiro D-s.
O que está em jogo neste confronto é a diferença entre o mito – no qual os deuses são meros poderes, a serem domesticados, propiciados ou manipulados – e o monoteísmo bíblico, no qual a ética (justiça, compaixão, dignidade humana) constitui o ponto de encontro entre D-s e a humanidade. Essa é a chave para as duas primeiras pragas, ambas referentes ao início da perseguição egípcia aos israelitas: o assassinato de meninos recém-nascidos, primeiro pelas parteiras (embora, graças ao senso moral de Sifrá e Puá, isso tenha sido frustrado) e depois por jogá-los no Nilo para se afogarem.
Por isso, na primeira praga, as águas do rio se transformam em sangue. O significado da segunda, a dos sapos, teria sido imediatamente óbvio para os egípcios. Heqet, a deusa-sapo, representava a parteira que auxiliava as mulheres no parto. Ambas as pragas são mensagens codificadas que significam: “Se vocês usarem o rio e as parteiras – ambos normalmente associados à vida – para provocar a morte, essas mesmas forças se voltarão contra vocês”. Uma mensagem imensamente significativa está se formando: a realidade tem uma estrutura ética. Se usada para fins malignos, as forças da natureza se voltarão contra o homem, de modo que o que ele fizer lhe será feito. Há justiça na história.
A resposta dos egípcios a essas duas primeiras pragas foi interpretá-las dentro de sua própria perspectiva. Para eles, as pragas eram formas de magia, não milagres. Para os magos do faraó, Moshe e Aharon eram pessoas como eles, que praticavam "artes secretas". Então, eles os replicaram: mostraram que também podiam transformar água em sangue e gerar uma horda de rãs. A ironia aqui é evidente. Tão focados estavam os magos egípcios em provar que podiam fazer o que Moshe e Aharon haviam feito, que não perceberam que, longe de melhorar a situação dos egípcios, estavam piorando-a: mais sangue, mais rãs.
Isso nos leva à terceira praga, os piolhos. Um dos propósitos dessa praga é produzir um efeito que os magos não consigam replicar. Eles tentam. Eles falham. Imediatamente concluem: “Este é o dedo de D-s”. (Êxodo 8:15)
Esta é a primeira aparição na Torá de uma ideia, surpreendentemente persistente no pensamento religioso até hoje, chamada de “o D-s das lacunas”. Essa ideia sustenta que um milagre é algo para o qual ainda não podemos encontrar uma explicação científica. A ciência é natural; a religião é sobrenatural.
Um "ato de D-s" é algo que não podemos explicar racionalmente. O que mágicos (ou tecnocratas) não conseguem reproduzir deve ser resultado de intervenção divina. Isso leva inevitavelmente à conclusão de que religião e ciência são opostas. Quanto mais conseguimos explicar cientificamente ou controlar tecnologicamente, menos precisamos de fé. À medida que o escopo da ciência se expande, o lugar de D-s diminui progressivamente até desaparecer.
O que a Torá está insinuando é que esse é um modo de pensar pagão, não judaico. Os egípcios admitiram que Moshe e Aharon eram profetas genuínos quando realizaram maravilhas que ultrapassavam o alcance de sua própria magia. Mas não é por isso que acreditamos em Moshe e Aharon. Sobre isso, Maimônides é inequívoco:
Israel não acreditou em Moshe, nosso mestre, por causa dos sinais que ele realizou. Quando a fé se baseia em sinais, sempre permanece uma dúvida latente de que esses sinais possam ter sido realizados com o auxílio de artes ocultas e feitiçaria. Todos os sinais que Moshe realizou no deserto foram feitos porque eram necessários, não para autenticar seu status como profeta... Quando precisávamos de alimento, ele trouxe o maná. Quando o povo estava com sede, ele fendeu a rocha. Quando os partidários de Korach negaram sua autoridade, a terra os engoliu. O mesmo aconteceu com todos os outros sinais. Qual era, então, a nossa base para acreditar nele? A Revelação no Sinai, que vimos com nossos próprios olhos e ouvimos com nossos próprios ouvidos... Hilchot Yesodei HaTorah 8:1
A principal forma pela qual encontramos D-s não é por meio de milagres, mas por meio de Sua palavra – a Revelação – a Torá – que é a constituição do povo judeu como nação sob a soberania de D-s. Certamente, D-s está presente nos eventos que, aparentemente desafiando a natureza, chamamos de milagres. Mas Ele também está na própria natureza. A ciência não substitui D-s: ela revela, de maneiras cada vez mais complexas e maravilhosas, o projeto inerente à própria natureza. Longe de diminuir nosso senso religioso, a ciência (corretamente compreendida) deveria ampliá-lo, ensinando-nos a ver “Quão grandes são as tuas obras, ó D-s! Todas elas fizeste com sabedoria”. Acima de tudo, D-s se encontra na Voz ouvida no Sinai, que nos ensina a construir uma sociedade que será o oposto do Egito: na qual poucos não escravizam muitos, nem estrangeiros são maltratados.
O melhor argumento contra o mundo do Antigo Egito era o humor divino. Os sacerdotes e magos que acreditavam controlar o sol e o Nilo descobriram que não conseguiam nem mesmo produzir um piolho. Faraós como Ramsés II demonstraram seu status divino criando arquitetura monumental: os grandes templos, palácios e pirâmides cuja imensidão parecia denotar a grandeza divina (o Talmud explica que a magia egípcia não funcionava em coisas muito pequenas). D-s zomba deles revelando Sua Presença nas menores criaturas. "Mostrarei a vocês o medo em um punhado de poeira", escreveu o poeta T.S. Eliot.
O que os magos egípcios (e seus sucessores posteriores) não compreenderam é que o poder sobre a natureza não é um fim em si mesmo, mas apenas o meio para fins éticos. Os piolhos eram uma piada de D-s às custas dos magos que acreditavam que, por controlarem as forças da natureza, eram os senhores do destino humano. Estavam enganados. Fé não é meramente acreditar no sobrenatural. É a capacidade de ouvir o chamado do Autor do Ser, de ser livre de tal forma que respeite a liberdade e a dignidade dos outros.
Texto original “Of Lice and Men” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l

