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  • há 5 dias
  • 8 min de leitura

KORACH

Poder Versus Influência

A rebelião de Korach foi uma aliança profana de indivíduos e grupos unidos por suas queixas contra a liderança de Moshe. Havia o próprio Korach, membro da tribo de Levi, furioso (segundo Rashi) por não ter recebido um papel mais proeminente. Havia os rubenitas, Datan e Aviram, que se ressentiam do fato de que as principais posições de liderança eram ocupadas por levitas em vez de membros de sua própria tribo. Reuben havia sido o primogênito de Yaakov, então alguns de seus descendentes sentiam que deveriam ter recebido a primazia. Havia também os duzentos e cinquenta “líderes da comunidade, escolhidos dentre a assembleia, homens de reputação” que se sentiam injustiçados (segundo Ibn Ezra) porque, após o pecado do Bezerro de Ouro, a liderança havia passado dos primogênitos para uma única tribo, os levitas. Quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas. A história de Korach é um conto muito familiar de ambição frustrada e inveja mesquinha – o que os Sábios chamaram de “uma discussão não em nome do céu”.


O que há de mais extraordinário nesse episódio, porém, é a reação de Moshe. Pela primeira e única vez, ele invoca um milagre para provar a autenticidade de sua missão:

Então Moshe disse:

“Por meio disso vocês saberão que o Senhor me enviou para realizar essas obras; não foi ideia minha. Se todos esses homens morrerem como os demais, e compartilharem o destino comum de toda a humanidade, então o Senhor não me enviou. Mas se o Senhor criar algo totalmente novo, de modo que a terra abra a boca e os engula com tudo o que possuem, e eles desçam vivos ao Sheol, então vocês saberão que esses homens provocaram o Senhor.”  Números 16:28-30

Na prática, Moshe usa seu poder para eliminar a oposição. Que contraste com a generosidade de espírito que demonstrou apenas alguns capítulos antes, quando Yehoshua (Josué) veio lhe contar que Eldad e Medad estavam profetizando no acampamento, longe de Moshe e dos setenta anciãos. Yehoshua considerou isso uma ameaça potencialmente perigosa à liderança de Moshe e disse: “Moshe, meu senhor, impeça-os!” A resposta de Moshe é uma das mais majestosas de todo o Tanakh:

“Vocês estão com ciúmes de mim? Oxalá todo o povo do Senhor fosse profeta, para que o Senhor pusesse o seu Espírito sobre todos eles!” Números 11:29

Qual era a diferença entre Eldad e Medad, por um lado, e Korach e seus cúmplices, por outro? Qual a diferença entre Moshe dizer: “Quem dera todo o povo do Senhor fosse profeta!” e a afirmação de Korach: “Toda a comunidade é santa, cada um deles, e o Senhor está no meio deles. Por que, então, vocês se colocam acima do povo do Senhor?” [1] Por que o primeiro, mas não o segundo, era um sentimento legítimo?


Será que Moshe está simplesmente sendo inconsistente? Dificilmente. Nunca houve um líder religioso mais lúcido. Há aqui uma distinção que vai ao cerne das duas narrativas. Os Sábios, em uma de suas observações metodológicas mais profundas, disseram que “as palavras da Torá podem ser pobres em um lugar, mas ricas em outro”. Com isso, eles queriam dizer que, se buscamos compreender uma passagem complexa, talvez precisemos procurar a pista em outra parte da Torá. Uma ideia semelhante é expressa na última das treze regras de interpretação bíblica do Rabino Ismael:

“Quando existem duas passagens que se contradizem, o significado só pode ser determinado quando se encontra uma terceira passagem que as harmonize.”

Nesse caso, a resposta encontra-se mais adiante no livro de Bamidbar, quando Moshe pede a D-s que escolha o próximo líder dos israelitas. D-s lhe diz para escolher Yehoshua e nomeá-lo seu sucessor.


Então o Senhor disse a Moshe: “Tome Yehoshua, filho de Num, um homem cheio do Meu Espírito, e imponha a sua mão sobre ele. Apresente-o diante de Elazar, o sacerdote, e de toda a comunidade, e, na presença deles, dê-lhe esta ordem. Dê-lhe parte da sua majestade, para que toda a comunidade de Israel lhe obedeça.” Números 27:18-20

Moshe recebeu a ordem de realizar dois atos além de apresentar Yehoshua ao sacerdote e ao povo. Primeiro, ele deveria impor as mãos sobre Yehoshua. Depois, deveria dar a Yehoshua parte de seu esplendor. Qual o significado desses dois gestos? Em que diferiam um do outro? Qual deles constituía a posse no cargo? Os Sábios, no Midrash Rabbah, acrescentaram um comentário que, à primeira vista, apenas aprofunda o mistério:

“Imponha a sua mão sobre ele” – isso é como acender uma luz a partir de outra. “Dê a ele um pouco do seu esplendor” – isso é como transbordar de um recipiente para outro.

Na verdade, é esta declaração que nos permitirá decifrar o mistério.


Existem duas formas ou dimensões de liderança. Uma é o poder, a outra, a influência. Muitas vezes confundimos as duas. Afinal, quem tem poder geralmente tem influência, e quem tem influência tem um certo tipo de poder. Na verdade, porém, as duas são bem diferentes, até mesmo opostas.


Podemos ver isso por meio de um simples experimento mental. Imagine que você detém poder absoluto e decide compartilhá-lo com outras nove pessoas. Agora você tem um décimo do poder inicial. Imagine, por outro lado, que você possui uma certa medida de influência e a compartilha com outras nove pessoas. Quanto poder lhe resta? Não menos. Na verdade, mais. Inicialmente, havia apenas você; agora são dez. Sua influência se espalhou. O poder opera por divisão, a influência por multiplicação. Com o poder, quanto mais compartilhamos, menos temos. Com a influência, quanto mais compartilhamos, mais temos.


A diferença é tão profunda que a Torá os atribui a dois papéis de liderança distintos: rei e profeta. Os reis detinham o poder. Podiam cobrar impostos, recrutar pessoas para servir no exército e decidir quando e contra quem declarar guerra. Podiam impor punições extrajudiciais para preservar a ordem social. Hobbes, como se sabe, chamou a realeza de "Leviatã" e a definiu em termos de poder. A própria natureza do contrato social, argumentava ele, era a transferência de poder dos indivíduos para uma autoridade central. Sem isso, não poderia haver governo, defesa de um país ou proteção contra a ilegalidade e a anarquia.


Os profetas, em contraste, não tinham poder algum. Não comandavam exércitos. Não cobravam impostos. Proclamavam a palavra de D-s, mas não tinham meios de a impor. Tudo o que tinham era influência — mas que influência! Até hoje, a luta de Elias contra a corrupção, o apelo de Amós à justiça social, a visão de Isaías sobre o fim dos tempos, ainda são capazes de nos comover pela pura força de sua inspiração. Quem, hoje, se deixa influenciar pelas vidas de Aẖ'av (Acabe), Yehoshaphat (Josafá) ou Yehu (Jeú)? Quando um rei ou rainha morre, seu poder termina. Quando um profeta morre, sua influência começa. Voltando a Moshe: eis um homem que ocupava dois papéis de liderança, não apenas um. Por um lado, embora a monarquia ainda não existisse, Moshe tinha o poder e era o equivalente funcional de um rei. Ele liderou os israelitas para fora do Egito, comandou-os em batalha, nomeou líderes, juízes e anciãos, e dirigiu a conduta do povo. Ele tinha poder.

Mas Moshe também foi um profeta, o maior e mais influente de todos. Ele era um homem de visão. Ouviu e proclamou a palavra de D-s. Sua influência é incalculável. Como escreveu Jean-Jacques Rousseau, em um manuscrito descoberto após sua morte:

...um espetáculo surpreendente e verdadeiramente único é ver um povo exilado, que não teve lugar nem terra por quase dois mil anos... um povo disperso, espalhado pelo mundo, escravizado, perseguido, desprezado por todas as nações, preservando, no entanto, suas características, suas leis, seus costumes, seu amor patriótico pela união social primitiva, quando todos os laços com ela parecem rompidos. Os judeus nos proporcionam um espetáculo surpreendente: as leis de Numa, Licurgo e Sólon estão mortas; as leis muito mais antigas de Moisés ainda estão vivas. Atenas, Esparta e Roma pereceram e não têm mais filhos na Terra; Sião, destruída, não perdeu seus filhos. 
Rousseau, Cahiers de brouillons, notas e extratos, no. 7843 (Neuchâtel).

O mistério da dupla investidura de Yehoshua por Moshe agora está resolvido. Primeiro, Moshe foi instruído a conceder a Yehoshua sua autoridade como profeta. A própria expressão usada na Torá – vesamachta et yadecha, 'imponha suas mãos' sobre ele – ainda hoje é usada para descrever a ordenação rabínica, que chamamos de semichá , ou seja, a 'imposição de mãos' do mestre sobre o discípulo. Segundo, Moshe foi ordenado a conceder a Yehoshua o poder da realeza, que a Torá chama de 'esplendor' (talvez 'majestade' seja uma tradução melhor). A natureza desse papel como chefe de Estado e comandante do exército fica bastante clara no texto. D-s diz a Moshe: “Dê a ele parte do seu esplendor, para que toda a comunidade de Israel lhe obedeça... Ao seu comando, ele e toda a comunidade de Israel sairão, e ao seu comando entrarão.” Esta é uma linguagem não de influência, mas de poder.


O significado do Midrash também se tornou claro e elegantemente preciso. A transferência de influência (“Imponha a sua mão sobre ele”) é “como acender uma vela a partir de outra”. Quando pegamos uma vela para acender outra, a luz da primeira não diminui. Da mesma forma, quando compartilhamos nossa influência com os outros, não temos menos do que antes. Em vez disso, a soma total da luz aumenta. O poder, no entanto, é diferente. É como “transbordar de um recipiente para outro”. Quanto mais transbordamos para o segundo, menos resta no primeiro. O poder é um jogo de soma zero. Quanto mais damos, menos temos.


Esta é, portanto, a solução para o mistério do porquê, quando Yehoshua temeu que Eldad e Medad (que “profetizavam no acampamento”) estivessem ameaçando a autoridade de Moshe, Moshe respondeu: “Quem dera todo o povo do Senhor fosse profeta!”. Yehoshua havia confundido influência com poder. Eldad e Medad não buscaram nem obtiveram poder. Em vez disso, por um tempo, receberam uma parte do “espírito” profético que estava sobre Moshe. Eles participaram de sua influência. Isso nunca representa uma ameaça à autoridade profética. Pelo contrário, quanto mais amplamente compartilhada, maior a sua influência.


O poder, porém, é precisamente o que Korach e seus seguidores buscavam — e, no caso do poder, a rivalidade representa uma ameaça à autoridade. “Há um líder para uma geração”, disseram os Sábios, “não dois”. Ou, como colocaram em outro lugar: “Podem dois reis compartilhar uma única coroa?”. Existem muitas formas de governo — monarquia, oligarquia e democracia —, mas o que elas têm em comum é a concentração de poder em um único corpo, seja pessoa, grupo ou instituição (como um parlamento). Sem esse monopólio do uso legítimo da força coercitiva, não existe governo. É por isso que, na lei judaica, “um rei não pode renunciar à honra que lhe é devida”.


O pedido de Moshe para que Korach e seus seguidores fossem engolidos pela terra não foi motivado por raiva nem medo. Não teve qualquer motivação pessoal. Foi simplesmente a constatação de que, enquanto a profecia pode ser compartilhada, a realeza não pode. Se houver duas ou mais fontes de poder concorrentes em um mesmo domínio, não há liderança. Se Moshe não tivesse agido decisivamente contra Korach, teria comprometido fatalmente o cargo que lhe fora confiado.


Raramente vemos com tanta clareza a nítida diferença entre influência e poder como nestes dois episódios: Eldad e Medad, por um lado, e Korach e seus companheiros rebeldes, por outro. O último representava um conflito que precisava ser resolvido. Ou Moshe ou Korach sairiam vitoriosos; ambos não poderiam vencer. O primeiro não representava conflito algum. Conhecimento, inspiração, visão – essas são coisas que podem ser compartilhadas sem perdas. Aqueles que as compartilham com outros enriquecem a comunidade espiritualmente sem perder nada de si mesmos.


Parafraseando Shakespeare, “A influência que temos sobrevive a nós; o poder, muitas vezes, é sepultado com nossos ossos”. Grande parte do judaísmo é um extenso ensaio sobre a supremacia dos profetas sobre os reis, do direito sobre a força, do ensinamento em vez da coerção, da influência em vez do poder. Os judeus detiveram o poder apenas em uma pequena fração da nossa história, mas sempre exerceram influência sobre a civilização ocidental. As pessoas ainda disputam o poder. Se ao menos percebêssemos quão estreitos são seus limites. Uma coisa é forçar as pessoas a se comportarem de uma determinada maneira; outra bem diferente é ensiná-las a ver o mundo de forma diferente, para que, por iniciativa própria, ajam de uma nova maneira. O uso do poder diminui os outros; o exercício da influência os engrandece. Essa é uma das verdades mais humanizadoras do judaísmo. Nem todos nós temos poder, mas todos somos capazes de exercer uma influência positiva.

 

 

NOTAS [1] A primeira queixa que Korach expressa contra Moshe, Números 16:3.

 

Texto original “Power versus Influence” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l

 


  • 10 de jun.
  • 5 min de leitura

SHELACH

Além da Franja

Nossa porção da Torá termina com um dos grandes mandamentos do judaísmo –  o tzitzit, as franjas usadas nos cantos de nossas vestes como um lembrete perene de nossa identidade como judeus e de nossa obrigação de cumprir os mandamentos da Torá:

O Senhor disse a Moisés: “Diga aos israelitas que façam franjas nas extremidades de suas vestes, por todas as gerações. A cada franja, amarrem um cordão azul. Essa será a sua franja; ao vê-la, vocês se lembrarão de todos os mandamentos do Senhor e os guardarão. Assim, vocês não se desviarão, seguindo os desejos do seu coração nem dos seus olhos. Isso servirá de lembrete para que vocês guardem todos os Meus mandamentos e permaneçam santos para o seu D-s.” Número 15:37-40

Tão central é esse mandamento que se tornou o terceiro parágrafo do Shemá, a suprema declaração da fé judaica. Certa vez, ouvi o seguinte comentário do meu professor, o Rabino Dr. Nachum Rabinovitch.


Ele começou destacando algumas das peculiaridades do mandamento. Por um lado, os Sábios disseram que o mandamento do  tzitzit equivale a todos os outros mandamentos juntos, como está escrito: “Olhe para ele e lembre-se  de todos os mandamentos do Senhor  e observe-os”. Portanto, ele possui um significado fundamental.


Por outro lado, não é absolutamente obrigatório. É possível evitar completamente a exigência das franjas simplesmente não usando uma vestimenta com quatro ou mais pontas. Maimônides afirma: “Embora não seja obrigatório adquirir uma túnica [de quatro pontas] e se envolver nela para [cumprir a exigência do] tzitzit, não convém a uma pessoa piedosa se isentar dessa exigência” (Leis do Tzitzit, 3:11). É importante e louvável, mas não categórico. É condicional:  se  você possui tal vestimenta,  então  deve colocar franjas nela. Por que? Certamente deveria ser obrigatório, da mesma forma que  os tefilin (filactérios).


Existe outro fenômeno incomum. Com o passar do tempo, o costume evoluiu para cumprir o mandamento de duas maneiras bastante diferentes: a primeira, na forma de um talit (manto, xale) que é usado  sobre  nossas outras roupas, especificamente enquanto oramos; a segunda, na forma de uma  roupa íntima, usada  por baixo  da roupa exterior durante todo o dia.


Não apenas cumprimos o mesmo mandamento de duas maneiras diferentes, como também proferimos bênçãos distintas sobre cada uma delas. Sobre o talit, dizemos: "Aquele que nos santificou com os Seus mandamentos e nos ordenou que  nos envolvêssemos em uma túnica com franjas". Sobre a roupa íntima, dizemos: "Aquele que nos santificou com os Seus mandamentos e nos ordenou  a respeito do preceito  da túnica com franjas". Por que um único mandamento é dividido em dois dessa forma?


O rabino Rabinovitch deu esta resposta: existem dois tipos de vestimenta. Há as roupas que usamos para projetar uma imagem. Um rei, um juiz e um soldado usam roupas que ocultam o indivíduo e, em vez disso, proclamam um papel, um cargo, uma posição. Como tal, as roupas, especialmente os uniformes, podem ser enganosas. Um rei vestido de mendigo não será (ou não seria, antes da televisão) reconhecido como realeza. Um mendigo vestido de rei pode se sentir honrado. Um policial vestido de policial carrega consigo uma certa autoridade, uma aura de poder, mesmo que se sinta nervoso e inseguro. As roupas disfarçam. São como uma máscara, escondendo a pessoa por baixo. Essas são as roupas que usamos em público quando queremos causar uma determinada impressão.


Mas existem outras roupas que usamos quando estamos sozinhos, que podem transmitir com mais força do que qualquer outra coisa o tipo de pessoa que realmente somos: o artista em seu estúdio, o escritor em sua escrivaninha, o jardineiro cuidando das rosas. Eles não se vestem para causar uma impressão. Pelo contrário: vestem-se como se vestem por causa do que são, não por causa do que desejam parecer.


Os dois tipos de  tzitzit  representam essas diferentes formas de vestimenta. Quando oramos, sentimos em nosso coração o quão indignos podemos ser das elevadas exigências que D-s nos faz. Sentimos a necessidade de nos apresentarmos diante de D-s como algo mais do que apenas nós mesmos. Cobrimos-nos com o manto, o talit, o grande símbolo do povo judeu em oração. Ocultamos nossa individualidade – na linguagem da bênção sobre o talit, “ nos envolvemos  em uma vestimenta com franjas”. É como se disséssemos a D-s: posso ser apenas um mendigo, mas estou vestindo um manto real, o manto do teu povo Israel, que orou a Ti ao longo dos séculos, a quem demonstraste um amor especial e tomaste como teus. O talit esconde a pessoa que somos e representa a pessoa que gostaríamos de ser, porque na oração pedimos a D-s que nos julgue não pelo que somos, mas pelo que desejamos ser.


O simbolismo mais profundo do tzitzit, no entanto, reside no fato de representar os mandamentos como um todo (“olhe para ele e lembre-se de todos os mandamentos do Senhor”) – e estes se tornam parte de quem somos e do que somos somente quando os aceitamos sem coerção, por nossa própria vontade. É por isso que o mandamento do tzitzit não é categórico. Não somos  obrigados  a usá-lo. Não somos obrigados a comprar uma vestimenta de quatro pontas. Quando o fazemos, é porque escolhemos  fazê-lo. Nós nos obrigamos. É por isso que optar por usar tzitzit simboliza a livre aceitação de todos os deveres da vida judaica.


Este é o aspecto mais íntimo, profundo e pessoal da fé, onde, no âmago da nossa alma, nos dedicamos a D-s e aos Seus mandamentos. Não há nada de público nisso. Não se trata de ostentação. É  quem somos quando estamos sozinhos, sem tentar impressionar ninguém, sem desejar parecer o que não somos. Este é o mandamento do tzitzit como vestimenta íntima, por baixo, e não por cima, das nossas roupas. Sobre isso, fazemos uma bênção diferente. Não falamos em “nos envolver  em uma vestimenta com franjas” – porque esse tipo de franja não é para exibição externa. Não estamos tentando nos esconder sob um uniforme. Em vez disso, estamos expressando nosso compromisso mais íntimo com a palavra de D-s e o Seu chamado. Sobre isso, dizemos a bênção: “que nos ordenou a respeito do preceito  do tzitzit”, porque o que importa não é a máscara, mas a realidade; não como desejamos parecer, mas o que realmente somos.


Dessa forma marcante, os tzitzit representam a natureza dual do judaísmo. Por um lado, é um modo de vida público, comunitário, compartilhado com pessoas de todo o mundo e ao longo dos séculos. Guardamos o Shabat, celebramos as festas, observamos as leis alimentares e as leis de pureza familiar de uma maneira que praticamente não mudou por muitos séculos. Essa é a face pública do judaísmo – o  talit  que vestimos, o manto tecido com 613 fios, cada um deles um mandamento de D-s.


Mas também existe nossa vida interior como pessoas de fé. Há coisas que podemos dizer a D-s que não podemos dizer a mais ninguém. Ele conhece nossos pensamentos, esperanças e medos melhor do que nós mesmos. Falamos com Ele na intimidade da alma, e Ele ouve. Essa conversa interna — a abertura do nosso coração para Aquele que nos trouxe à existência por amor — não é para exibição pública. Como a túnica com franjas, ela permanece oculta. Mas não é menos real como aspecto da espiritualidade judaica. Os dois tipos de túnica com franjas representam as duas dimensões da vida de fé: a persona exterior e a pessoa interior, a imagem que apresentamos ao mundo e o rosto que mostramos somente a D-s.

 

Texto original “Beyond the Fringe” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l



  • 2 de jun.
  • 10 min de leitura

BEHALOTCHA

O Desafio de Moshe

Foi a pior crise da vida de Moshe. Incitados pela "multidão mista", os israelitas reclamaram da comida:

'Se ao menos tivéssemos carne para comer. Lembramos do peixe que comíamos de graça no Egito – e também dos pepinos, melões, alhos-porós, cebolas e alho. Mas agora perdemos o apetite; só vemos esse maná.'  Números 11:4-6

Foi uma demonstração terrível de ingratidão, mas não foi a primeira vez que os israelitas se comportaram dessa maneira. Três episódios anteriores são registrados no livro de Êxodo (capítulos 15 a 17), imediatamente após a travessia do Mar Vermelho. Primeiro, em Mara, reclamaram que a água era amarga. Depois, em termos mais agressivos, protestaram contra a falta de comida ("Quem dera tivéssemos morrido pela mão do Senhor no Egito! Lá nos sentávamos ao redor de panelas de carne e comíamos à vontade, mas você nos trouxe para este deserto para matar de fome toda esta multidão"). Mais tarde, em Refidim, murmuraram sobre a falta de água, levando Moshe a dizer a D-s: "O que farei com este povo? Estão quase apedrejando-me!"


O episódio da porção da Torá desta semana — no local que ficou conhecido como Kivrot Hataavah — não foi, portanto, o primeiro desafio desse tipo que Moshe enfrentou, mas o quarto. Contudo, a reação de Moshe desta vez foi de completo desespero:



É um desabafo extraordinário. Moshe ora para morrer. Ele não é o último profeta de Israel a fazê-lo. Elias, Jeremias e Jonas fizeram o mesmo, o que nos leva a perceber que até os maiores podem ter seus momentos de desespero. Contudo, o caso de Moshe é particularmente intrigante. Ele já havia enfrentado e superado dificuldades semelhantes antes. Em cada ocasião, D-s atendera aos pedidos do povo. Ele enviara água, maná e codornizes. Moshe sabia disso. Por que, então, o quarto desabafo do povo ("Se ao menos tivéssemos carne para comer!") provocou nele, o mais forte dos homens, o que parece ser nada menos que um colapso total?


Igualmente estranha é a reação de D-s:

'Reúna para mim setenta anciãos de Israel, que você saiba serem os anciãos e oficiais do povo, e traga-os à Tenda da Reunião. Deixe-os ficar ali com você. Descerei e falarei com você ali, e tomarei do espírito que está sobre você e o porei sobre eles; eles compartilharão o fardo do povo com você, e você não terá que carregá-lo sozinho.' Números 11:16-17

Sem dúvida, esta é uma resposta à queixa de Moshe: "Não posso carregar todo este povo sozinho". No entanto, tanto a queixa quanto a resposta são intrigantes. De que forma a nomeação de anciãos resolveria a crise interna que Moshe estava enfrentando? Ele precisava deles para encontrar carne? Claramente não. Ou ela apareceria por um milagre ou não apareceria de forma alguma. Ele precisava deles para compartilhar os fardos da liderança? A resposta é novamente não. Não muito tempo antes, por conselho de seu sogro Jetro, ele já havia criado uma estrutura de delegação. Jetro havia dito o seguinte:

'O que você está fazendo não é bom. Você vai se desgastar, e este povo junto com você. É um fardo pesado demais para você. Você não pode carregá-lo sozinho. Agora me escute, deixe-me aconselhá-lo; e que D-s esteja com você. Fale em nome do povo perante D-s e leve suas preocupações a Ele. E você deve familiarizá-los com Seus preceitos e leis, e mostrar-lhes o caminho que devem seguir e a maneira como devem agir. Você também deve procurar entre o povo homens capazes – homens tementes a D-s, confiáveis, que desprezam a corrupção; e nomeá-los como líderes do povo, de milhares, centenas, cinquenta e dezenas.' Êxodo 18:18-21

Moshe acatou a sugestão. Portanto, ele já tinha assistentes, deputados e uma equipe de liderança. De que forma essa nova nomeação de setenta anciãos faria diferença?

Além disso, por que a ênfase no espírito na resposta de D-s: "Tomarei do espírito que está sobre ti e o porei sobre eles"? De que maneira os anciãos precisavam se tornar profetas para ajudar Moshe? Ser profeta não ajuda alguém a cumprir tarefas administrativas ou outros encargos de liderança. Ajuda apenas a saber que orientação dar ao povo — e para isso, um profeta, Moshe, é suficiente. Para ser mais preciso, ou os setenta anciãos transmitiriam a mesma mensagem que Moshe, ou não. Se o fizessem, seriam supérfluos. Se não o fizessem, minariam sua autoridade (exatamente o que Josué temia em Números 11:28).


Ciente das múltiplas dificuldades presentes no texto, Ramban oferece a seguinte interpretação:

Moshe pensou que, se tivessem muitos líderes, estes aplacariam a ira do povo falando aos seus corações quando este começasse a reclamar. Ou talvez, quando os anciãos profetizassem e o espírito estivesse sobre eles, o povo saberia que os anciãos eram profetas reconhecidos e, portanto, não se reuniriam contra Moshe, mas também lhes pediriam o que desejavam.

Ambas as sugestões são perspicazes, mas nenhuma delas é isenta de dificuldades. A primeira — de que os anciãos se tornariam pacificadores entre o povo — não exigia uma nova liderança. Moshe já tinha os chefes de milhares, centenas, cinquenta e dez. A segunda — de que a presença deles dissiparia a raiva do povo, dando-lhes muitas pessoas, e não apenas uma, a quem reclamar — é igualmente difícil de entender. Lembramos que, quando o povo tinha outra pessoa a quem recorrer com suas preocupações (Aharon), isso levou à confecção do Bezerro de Ouro. Por que D-s não tirou o espírito que estava sobre Moshe e o colocou sobre Aharon naquele momento? Isso teria evitado a maior catástrofe dos anos no deserto. Além disso, não encontramos nenhum registro de que os setenta anciãos tenham feito algo em Kivrot Hataavah . O texto até diz: “Quando o espírito repousou sobre eles, profetizaram, mas não o fizeram novamente”. [1] Como, então, esse fluxo único e irrepetível do espírito profético fez alguma diferença? Quanto mais refletimos sobre a passagem, mais as dificuldades se multiplicam.


Mas algo aconteceu. O desespero de Moshe desapareceu. Sua atitude se transformou. Imediatamente depois, é como se um novo Moshe estivesse diante de nós, imperturbável até mesmo pelos desafios mais sérios à sua liderança. Quando dois dos anciãos, Eldade e Medade, profetizam não na Tenda da Reunião, mas no acampamento, Josué percebe uma ameaça à autoridade de Moshe e diz: "Moshe, meu senhor, impeça-os!" Moshe responde, com uma generosidade de espírito extraordinária: "Vocês estão com ciúmes por minha causa? Oxalá todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor pusesse o seu espírito sobre eles!" No capítulo seguinte, quando seu próprio irmão e irmã, Aharon e Miriam, começam a reclamar dele, ele não faz nada: "Ora, Moshe era um homem muito humilde, mais humilde do que qualquer outro na face da terra." De fato, quando D-s se irou com Miriã, Moshe orou em seu favor. O desespero passou. A crise passou. Esses dois desafios eram muito mais sérios do que o pedido do povo por carne, mas Moshe os enfrenta com confiança e serenidade. Algo aconteceu entre ele e D-s, e ele foi transformado. O que foi?

Para entendermos a sequência de eventos, devemos primeiro situá-los em seu contexto histórico. O rabino Moshe Lichtenstein, em seu perspicaz livro sobre a liderança de Moshe, Tzir veTzon (Alon Shvut, 5762), observa que há uma mudança marcante de tom entre o livro de Êxodo e o livro de Números. As queixas não mudam, mas as respostas de D-s e de Moshe sim. Em Êxodo, D-s não se ira com o povo, ou, se o faz, as orações de Moshe conseguem afastar a ira. Em Números, a resposta — às vezes de D-s, às vezes de Moshe — é mais implacável. O que mudou?


R. Lichtenstein — corretamente, a meu ver — sugere que a instabilidade inicial do povo é perdoável. Certamente, eles deveriam ter tido fé em D-s, mas nunca haviam enfrentado o Mar Vermelho, o deserto ou a falta de comida e água. Sua maior transgressão — a confecção do Bezerro de Ouro — leva a uma longa pausa na narrativa, essencialmente do capítulo 25 de Êxodo ao capítulo 11 de Números. Durante esse período, em resposta à oração de Moshe por perdão, D-s instrui o povo a construir um Tabernáculo que garantiria Sua presença constante entre eles.


Grande parte da segunda metade de Êxodo, todo o livro de Levítico e os dez primeiros capítulos de Números são dedicados aos detalhes do Santuário, ao serviço que ali deveria ocorrer e à reconstituição de Israel como uma nação santa acampada, tribo por tribo, ao seu redor. Toda essa sequência de 53 capítulos, ambientada no deserto do Sinai, representa uma espécie de momento meta-histórico, uma pausa na jornada dos israelitas de um lugar para outro. O tempo e o espaço param. Entre os eventos gêmeos da Entrega da Torá e da construção do Tabernáculo, os israelitas se transformam de uma massa indisciplinada de escravos fugitivos em uma nação cuja constituição é a Torá, cujo soberano é somente D-s e em cujo centro (física e metafisicamente) está o Santuário (o Mishkan), o sinal visível da Presença de D-s. Os israelitas não são mais o que eram antes de chegarem ao Sinai. Agora são “um reino de sacerdotes e uma nação santa”.


Daí o desespero de Moshe quando eles reclamaram da comida. Já haviam feito isso antes. Mas antes eram diferentes. Ainda não haviam passado pelas experiências transformadoras que os moldaram como nação. O que fez o espírito de Moshe se quebrar foi o fato de que, mal haviam deixado o deserto do Sinai para recomeçar a jornada, voltaram aos seus antigos hábitos de reclamação como se nada tivesse mudado. Se a revelação no Sinai, a experiência da ira divina contra o Bezerro de Ouro e o longo trabalho de construção do Tabernáculo não os haviam transformado, o que poderia ou poderia? O desespero de Moshe é perfeitamente compreensível. Pela primeira vez desde o início de sua missão, ele podia ver a derrota diante de seus olhos. Nada — ou assim parecia — nem milagres, libertações, revelações ou trabalho criativo, poderia transformar esse povo de uma nação focada em comida em uma que compreendesse o significado do destino ético-espiritual único para o qual havia sido chamado. Talvez D-s, da perspectiva da eternidade, pudesse vislumbrar algum raio de esperança no futuro. Moshe, como ser humano, não podia. "Prefiro morrer", ele declara, "a passar o resto da minha vida trabalhando em vão."


Chegamos agora ao ponto da especulação. Posso estar enganado (e o Netziv coloca isso de outra forma em sua introdução a Haamek Davar, seção 5), mas interpreto a sequência de eventos da seguinte maneira: Pode chegar um momento na vida de qualquer líder verdadeiramente transformador em que o sol da esperança é eclipsado pelas nuvens da dúvida – não sobre D-s, mas sobre as pessoas, sobretudo sobre si mesmo. Será que estou realmente fazendo a diferença? Será que estou me iludindo ao pensar que posso mudar o mundo? Eu tentei, dediquei o melhor das minhas energias e inspiração, mas nada parece alterar a realidade deprimente da fragilidade humana e da falta de visão. Dei ao povo a palavra do próprio D-s, mas eles ainda reclamam, ainda pensam apenas nos desconfortos de hoje, não nas vastas possibilidades de amanhã. Tal desespero (lehavdil, Winston Churchill, que sofreu com isso, chamou-o de "cão negro") pode atingir até os maiores (para repetir, não apenas Moshe, mas também Elias, Jeremias e Jonas oraram para morrer). Moshe foi o maior de todos. Portanto, D-s lhe deu o maior presente de todos - um presente que ninguém mais jamais recebeu.


D-s permitiu que Moshe visse a influência que exercia sobre os outros. Por um breve instante, D-s tomou "o espírito que está sobre ti e o colocou sobre eles", para que Moshe pudesse ver a diferença que havia feito em um grupo, os setenta anciãos. Moshe não precisava de mais nada. Não precisava da ajuda deles. Não precisava que continuassem a profetizar. Tudo o que ele precisava era de um vislumbre transparente de como o seu espírito se comunicara com eles. Então, ele soube que havia feito a diferença. Mal poderia ele imaginar que ele — que quase nada encontrou dos israelitas em sua vida além de queixas, desafios e rebeliões — teria uma influência tão decisiva que o povo de Israel, 3.300 anos depois, ainda estaria estudando e vivendo de acordo com as palavras que ele transmitiu; que ele ajudara a forjar uma identidade que se provaria mais tenaz do que qualquer outra na história da humanidade; que, na perspectiva completa da retrospectiva, ele se provaria o maior líder que já existiu. Ele não sabia dessas coisas; não precisava saber dessas coisas. Tudo o que ele precisava era ver que setenta anciãos haviam internalizado o seu espírito e feito da sua mensagem a sua própria. Então ele soube que sua vida não havia sido em vão. Ele tinha discípulos. Sua visão não era apenas sua. Ele a havia plantado em outros. Outros também continuariam seu trabalho após sua morte. Isso era suficiente para ele, como deve ser para nós. Uma vez que Moshe compreendeu isso, ele pôde enfrentar qualquer desafio com serenidade (exceto, muitos anos depois, em Cades, mas essa é outra história).


Assim compreendida, a crise de Moshe traz uma mensagem para todos nós (e certamente é por isso que ela é narrada na Torá). Lembro-me de quando meu falecido pai, de abençoada memória, morreu e nós — minha mãe e meus irmãos — estávamos em luto (shivá). Constantemente, pessoas vinham nos contar sobre as gentilezas que ele havia demonstrado, em alguns casos, mais de 50 anos antes. Descobri, então, que muitas pessoas que passaram pelo luto tiveram experiências semelhantes. Comovente, pensei, e ao mesmo tempo triste, que meu pai, de abençoada memória, não estivesse lá para ouvir suas palavras. Que consolo teria sido para ele saber que, apesar das muitas dificuldades que enfrentou, o bem que fez não foi esquecido. E como é trágico que, com tanta frequência, guardemos nossa gratidão para nós mesmos, expressando-a em voz alta apenas quando a pessoa a quem nos sentimos gratos deixa esta vida e estamos consolando seus enlutados.


Talvez essa seja simplesmente a condição humana. Nunca sabemos realmente o quanto demos aos outros — o quanto uma palavra gentil, um ato atencioso, um gesto reconfortante, transforma vidas e jamais é esquecido. Nesse aspecto, se não em outros, somos como Moshe. Ele também era humano; não tinha acesso privilegiado à mente das outras pessoas; sem um milagre, não poderia ter sabido a influência que exercia sobre aqueles que lhe eram mais próximos. Todas as evidências pareciam indicar o contrário. O povo, mesmo depois de tudo o que D-s — e Moshe — haviam feito por eles, ainda era ingrato, queixoso, propenso a criticar e reclamar. Mas isso era apenas a superfície. Por um instante, D-s lhe deu um vislumbre do que estava por baixo da superfície. Mostrou-lhe como o espírito de Moshe havia entrado em outras pessoas e as elevado, ainda que brevemente, ao nível da visão profética.


D-s não fez isso por mais ninguém — nem naquela época, nem agora. Mas se foi suficiente para Moshe, é suficiente para nós. O bem que fazemos permanece após a nossa partida. É a maior coisa que existe. Podemos deixar um legado de riqueza, poder e até fama, mas esses são benefícios questionáveis ​​e, às vezes, causam mais danos do que benefícios àqueles a quem os deixamos. O que deixamos para os outros é um rastro da nossa influência positiva. Podemos nunca vê-lo, mas ele está lá. Essa é a maior bênção da liderança. Ela, por si só, é o antídoto para o desespero, o alicerce sólido da esperança.

 

NOTAS [1] Este é o sentido literal de Números 11:25 de acordo com a maioria dos comentaristas, embora o Targum o leia de forma diferente.

 

 

Texto original “Moses’ Challenge” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l



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