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  • há 6 dias
  • 6 min de leitura

KI TISSÁ

Dois Tipos de Encontro Religioso

Os eventos épicos da Parashá desta semana são emoldurados por dois objetos: os dois conjuntos de Tábuas, o primeiro dado antes, o segundo depois, do pecado do Bezerro de Ouro. Sobre o primeiro, lemos:

As Tábuas eram obra de D-s, e a escrita era a escrita de D-s, gravada nas Tábuas.  Êxodo 32:16

Esses eram talvez os objetos mais sagrados da história: do princípio ao fim, obra de D-s. No entanto, em poucas horas, estavam despedaçados, quebrados por Moshe quando viu o Bezerro e os israelitas dançando ao seu redor.


As segundas Tábuas, trazidas por Moshe no décimo dia de Tishrei, foram o resultado de sua prolongada súplica a D-s pelo perdão ao povo. Este é o evento histórico que está por trás do Yom Kippur (que ocorre todos os anos no décimo dia de Tishrei), o dia marcado perpetuamente como um tempo de graça, perdão e reconciliação entre D-s e o povo judeu. As segundas Tábuas diferiam das primeiras em um aspecto: elas não eram inteiramente obra de D-s.


“Talhe duas Tábuas de pedra como as primeiras, e nelas inscreverei as Palavras que estavam nas primeiras Tábuas que você quebrou.” Êxodo 34:1

Daí o paradoxo: as primeiras Tábuas, feitas por D-s, não permaneceram intactas. As segundas Tábuas, obra conjunta de D-s e Moshe, sim. Certamente o oposto deveria ser verdadeiro: quanto maior a santidade, mais eterna. Por que o objeto mais sagrado se quebrou enquanto o menos sagrado permaneceu inteiro? Esta não é, como pode parecer, uma questão específica das Tábuas. É, na verdade, um poderoso exemplo de um princípio fundamental da espiritualidade judaica.


Os místicos judeus distinguiam dois tipos de encontro divino-humano. Chamavam-lhes itaruta de-l'eylah e itaruta deletata, respectivamente “um despertar do alto” e “um despertar de baixo”. O primeiro é iniciado por D-s, o segundo pela humanidade. Um “despertar do alto” é espetacular, sobrenatural, um evento que rompe as correntes da causalidade que, em outros momentos, prendem o mundo natural. Um “despertar de baixo” não tem tal grandeza. É um gesto humano, demasiado humano.


Existe, porém, outra diferença entre eles, na direção oposta. Um “despertar de cima” pode mudar a natureza, mas não muda, por si só, a natureza humana. Nele, nenhum esforço humano foi despendido. Aqueles que o vivenciam são passivos. Enquanto dura, é avassalador; mas apenas enquanto dura. Depois, as pessoas retornam ao que eram. Um “despertar de baixo”, por outro lado, deixa uma marca permanente.


Porque os seres humanos tomaram a iniciativa, algo neles muda. Seus horizontes de possibilidades se expandiram. Agora sabem que são capazes de grandes feitos e, por já o terem feito uma vez, têm consciência de que podem fazê-lo novamente. Um despertar vindo de cima transforma temporariamente o mundo externo; um despertar vindo de baixo transforma permanentemente nosso mundo interno. O primeiro transforma o universo; o segundo nos transforma.


Dois exemplos. O primeiro: antes e depois da divisão do Mar Vermelho, os israelitas se depararam com inimigos: antes, pelos egípcios; depois, pelos amalequitas. A diferença é total.


Diante do Mar Vermelho, os israelitas receberam a ordem de não fazer nada:

“Não temas. Permanece firme e vê a libertação que o Senhor te trará hoje. Os egípcios que vês hoje, nunca mais os verás. O Senhor lutará por ti. Permanece em silêncio .”  Êxodo 14:13-14

Ao enfrentarem os amalequitas, porém, os próprios israelitas tiveram que lutar:

Moshe disse a Josué: " Escolha homens para nós, saia e lute contra os amalequitas." Êxodo 17:9

O primeiro foi um “despertar vindo de cima”, o segundo um “despertar vindo de baixo”. A diferença era palpável. Três dias após a abertura do Mar Vermelho, o maior de todos os milagres, os israelitas começaram a reclamar novamente (falta de água, falta de comida).

Mas, após a guerra contra os amalequitas, os israelitas nunca mais reclamaram ao enfrentar conflitos (a única exceção – quando os espiões retornaram e o povo perdeu a esperança – foi quando se basearam em boatos, e não na perspectiva imediata da batalha em si). As batalhas travadas por nós não nos transformam; as batalhas que travamos, sim.


O segundo exemplo: o Monte Sinai e o Tabernáculo. A Torá fala dessas duas revelações da “glória de D-s” em termos quase idênticos:

A glória do Senhor repousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias. No sétimo dia, Ele chamou Moshe do meio da nuvem. Êxodo 24:16
Então a Nuvem cobriu a Tenda da Reunião, e a glória do Senhor encheu o Tabernáculo. Êxodo 40:34

A diferença entre eles era que a santidade do Monte Sinai era momentânea, enquanto a do Tabernáculo era permanente (pelo menos até a construção do Templo, séculos depois).

A revelação no Sinai foi um “despertar divino”. Foi iniciada por D-s. Tão impactante foi que o povo disse a Moshe: “Que D-s não nos diga mais nada, para que não morramos” (Êxodo 20:16). Em contraste, o Tabernáculo envolveu trabalho humano. Os israelitas o construíram; prepararam o espaço estruturado que a Presença Divina eventualmente preencheria.


Quarenta dias após a revelação no Sinai, os israelitas fizeram um bezerro de ouro. Mas, depois de construírem o Santuário, não fizeram mais ídolos – pelo menos até entrarem na terra prometida. Essa é a diferença entre as coisas que são feitas por nós e as coisas em que participamos. As primeiras nos transformam por um momento, as segundas por toda a vida.

Existe ainda uma outra diferença entre as primeiras Tábuas e as segundas. Segundo a tradição, quando Moshe recebeu as primeiras Tábuas, foram-lhe entregues apenas a Torá Shebichtav, a “Torá Escrita”. Na época das segundas Tábuas, ele recebeu também a Torá She-be'al Peh, a Torá Oral.

R. Jochanan disse: D-s fez uma aliança com Israel apenas por causa da Lei Oral, como está escrito: “… pois de acordo com estas palavras fiz uma aliança contigo e com Israel” (Êxodo 34:27).

A diferença entre a Torá Escrita e a Torá Oral é profunda. A primeira é a palavra de D-s, sem qualquer contribuição humana. A segunda é uma parceria – a palavra de D-s interpretada pela mente humana. Seguem dois exemplos notáveis ​​a esse respeito, dentre várias passagens relevantes:

R. Judah disse em nome de Shmuel: Três mil leis tradicionais foram esquecidas durante o período de luto por Moshe. Disseram a Josué: “Peça” (através do ruach hakodesh, o Espírito Santo). Josué respondeu: “Não está no céu”. Disseram a Samuel: “Peça”. Ele respondeu: “Estes são os mandamentos”, insinuando que nenhum profeta tem o direito de introduzir algo novo. (BT Temurah 16a) “Se mil profetas da estatura de Elias e Eliseu dessem uma interpretação de um versículo, e mil e um Sábios oferecessem uma interpretação diferente, seguimos a maioria: a lei está de acordo com os mil e um Sábios e não de acordo com os mil profetas.” Maimônides, Comentário à Mishná, Introdução

Qualquer tentativa de reduzir a Torá Oral à Torá Escrita – baseando-se em profecias ou comunicação divina – ignora sua natureza essencial como a parceria colaborativa entre D-s e o homem, onde a revelação encontra a interpretação. Assim, a diferença entre as duas reflete precisamente a diferença entre as primeiras e a segundas Tábuas da Lei. As primeiras foram divinas, as segundas, resultado da colaboração divino-humana. Isso nos ajuda a compreender uma gloriosa ambiguidade. A Torá diz que no Sinai os israelitas ouviram uma “grande voz, velo yasaf” (Deuteronômio 5:18). Duas interpretações contraditórias são dadas para essa frase. Uma a lê como “uma grande voz que nunca mais foi ouvida”, a outra como “uma grande voz que não cessou” – ou seja, uma voz que sempre era ouvida. Ambas são verdadeiras. A primeira se refere à Torá Escrita, dada uma única vez e jamais repetida. A segunda se aplica à Torá Oral, cujo estudo jamais cessou.


Isso também nos ajuda a entender por que foi somente após as segundas Tábuas, e não após as primeiras, que “quando Moshe desceu do monte Sinai com as duas Tábuas do Testemunho nas mãos, ele não percebeu que a pele do seu rosto resplandecia, porque ele havia falado com D-s” (Êxodo 34:29). Ao receber as primeiras Tábuas, Moshe permaneceu passivo. Portanto, nada nele mudou. Já com as segundas, ele foi ativo. Ele participou da sua criação. Ele esculpiu a pedra na qual as palavras seriam gravadas. É por isso que ele se tornou uma pessoa diferente. Seu rosto resplandeceu.


No judaísmo, o natural é maior que o sobrenatural, no sentido de que um "despertar de baixo" é mais poderoso em nos transformar e tem efeitos mais duradouros do que um "despertar de cima". Foi por isso que as segundas Tábuas da Lei sobreviveram intactas, enquanto as primeiras não. A intervenção divina transforma a natureza, mas é a iniciativa humana — nossa aproximação com D-s — que nos transforma.

 

 

Texto original “Two Types of Religious Encounter” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l



  • 24 de fev.
  • 4 min de leitura

TETZAVE

Profeta e Sacerdote

A parashá de Tetzave, como observaram os comentaristas, possui uma característica incomum: é a única sedra do início de Shemot ao final de Devarim que não contém nem o nome nem as palavras de Moshe. Diversas interpretações foram propostas.


O Gaon de Vilna sugere que isso está relacionado ao fato de que, na maioria dos anos, o livro é lido durante a semana em que cai o sétimo dia de Adar: o dia da morte de Moshe. Durante essa semana, sentimos a perda do maior líder da história judaica – e sua ausência em Tetzave expressa essa perda.


O Baal HaTurim relaciona isso ao pedido de Moshe, na sedra da próxima semana, para que D-s perdoe Israel. “Se não”, diz Moshe, “risque-me do livro que escreveste” (Êxodo 32:32). Há um princípio que diz que “a maldição de um sábio se cumpre, mesmo que tenha sido condicional” (Makot 11a). Assim, por uma semana, seu nome foi “apagado” da Torá.


O Paneach Raza relaciona isso a outro princípio: “Não há ira que não deixe uma marca”. Quando Moshe, pela última vez, recusou o convite de D-s para liderar o povo judeu para fora do Egito, dizendo: “Por favor, envie outra pessoa”, D-s “irritou-se com Moshe” (Êxodo 4:13-14) e disse-lhe que seu irmão Aharon o acompanharia. Por essa razão, Moshe abdicou do papel que poderia ter tido, de se tornar o primeiro dos sacerdotes de Israel, um papel que coube a Aharon. É por isso que ele está ausente da sedra de Tetzave, que é dedicada ao papel do Cohen.


Todas as três explicações se concentram em uma ausência. No entanto, talvez a explicação mais simples seja que Tetzave seja dedicada a uma presença, uma que teve uma influência decisiva no judaísmo e na história judaica.


O judaísmo é peculiar por reconhecer não apenas uma, mas duas formas de liderança religiosa: o  Navi  e  o Kohen, o profeta e o sacerdote. A figura do profeta sempre cativou a imaginação. Ele ou ela é uma pessoa dramática, que “diz a verdade ao poder”, destemida ao desafiar reis, cortes ou a sociedade como um todo em nome de ideais elevados, até mesmo utópicos. Nenhum outro tipo de personalidade religiosa teve o impacto dos profetas de Israel, dos quais o maior foi Moshe. Os sacerdotes, por outro lado, eram em sua maioria figuras mais discretas, apolíticas, que serviam no Santuário em vez de estarem no centro das atenções do debate político. Contudo, eles, tanto quanto os profetas, sustentaram Israel como uma nação santa. De fato, embora os Filhos de Israel tenham sido convocados a se tornarem “um reino de sacerdotes”, nunca foram chamados a ser um povo de profetas. [1]


Consideremos, portanto, algumas das diferenças entre um profeta e um sacerdote:

·       O papel de sacerdote era dinástico, passando de pai para filho. Já o papel de profeta não era dinástico. Os próprios filhos de Moshe não o sucederam; Yehoshua (Josué), seu discípulo, foi escolhido em seu lugar.

·       A tarefa do sacerdote estava relacionada ao seu ofício. Não era inerentemente pessoal ou carismática. Os profetas, em contraste, imprimiam cada um a sua própria personalidade. “Não havia dois profetas com o mesmo estilo.” [2]

·       Os sacerdotes usavam um uniforme especial; os profetas, não.

·       Existem regras de  kavod  (honra) devidas a um Cohen. Não existem regras correspondentes para a honra devida a um profeta. Um profeta é honrado por ser ouvido, não por protocolos formais de respeito.

·       Os sacerdotes eram afastados do povo. Serviam no Templo. Não lhes era permitido se contaminarem. Havia restrições quanto a com quem podiam se casar. O profeta, por outro lado, geralmente fazia parte do povo. Podia ser um pastor como Moshe ou Amós, ou um agricultor como Elisha (Eliseu). Até que a palavra ou a visão chegasse, não havia nada de especial em seu trabalho ou classe social.

·       O sacerdote oferecia sacrifícios em silêncio. O profeta servia a D-s por meio da palavra.

·       Eles viviam em dois modos de tempo diferentes. O sacerdote atuava no tempo cíclico – o dia (ou semana ou mês) que é como ontem ou amanhã. O profeta vivia no tempo da aliança (às vezes chamado, erroneamente, de tempo linear) – o hoje que é radicalmente diferente de ontem ou amanhã. O serviço do sacerdote nunca mudava; o do profeta estava em constante mudança. Outra maneira de dizer isso é que o sacerdote trabalhava para santificar a natureza, o profeta para responder à história.

·       Assim, o sacerdote representa o princípio da estrutura na vida judaica, enquanto o profeta representa a espontaneidade.


As palavras-chave no vocabulário do Cohen são  kodesh  e  chol,  tahor  e  tamei, sagrado, secular, puro e impuro. As palavras-chave no vocabulário dos profetas são  tzeddek  e  mishpat,  chessed  e  rachamim, retidão e justiça, bondade e compaixão.


Os verbos-chave do sacerdócio são  lehorot  e  lehavdil, instruir e distinguir. A principal atividade do profeta é proclamar “a palavra do Senhor”. A distinção entre a consciência sacerdotal e a profética ( torat kohanim  e  torat nevi'im ) é fundamental para o judaísmo e se reflete nas diferenças entre lei e narrativa,  halachá  e  agadá, criação e redenção. O sacerdote profere a Palavra de D-s para todos os tempos, o profeta, a Palavra de D-s para este tempo. Sem o profeta, o judaísmo não seria uma religião de história e destino. Mas sem o sacerdote, os Filhos de Israel não teriam se tornado o povo da eternidade. Isso é belamente resumido nos versículos iniciais de Tetzave:

Ordena aos israelitas que tragam azeite puro de azeitonas esmagadas para iluminar a lâmpada todas as noites. Da tarde à manhã, perante o Senhor, Aharon e seus filhos a acenderão na Tenda da Reunião, fora do véu que cobre a Arca da Aliança. Este será um mandamento perpétuo para os israelitas, por todas as suas gerações.  Êxodo 27:20-21

Moshe, o profeta, domina quatro dos cinco livros que levam seu nome. Mas em Tetzave, pela primeira vez, é Aharon, o primeiro dos sacerdotes, quem ocupa o centro das atenções, sem ser diminuído pela presença rival de seu irmão. Pois, enquanto Moshe acendeu a chama nas almas do povo judeu, Aharon cuidou da chama e a transformou em “uma luz eterna”.

 

NOTAS

[1] Moshe disse: “Quem dera todo o povo de D-s fosse profeta”, mas isso era um desejo, não uma realidade.

[2] Aliás, é por isso que havia profetisas, mas não sacerdotisas: isso corresponde à diferença entre o ofício formal e a autoridade pessoal. Veja R. Eliyahu Bakshi-Doron, Responsa Binyan Av, I:65.

 

Texto original “Prophet and Priest” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l



  • 19 de fev.
  • 6 min de leitura

TERUMÁ

Duas Narrativas da Criação

A Torá descreve dois atos de criação: a criação do universo por D-s e a criação do Mikdash, ou Mishkan, pelos israelitas, o Santuário que os acompanhava no deserto, o protótipo do Templo de Jerusalém.


A conexão entre eles não é acidental. Como vários comentaristas observaram, a Torá evoca uma série de paralelos verbais entre eles. O efeito é inegável. O segundo espelha o primeiro. Assim como D-s criou o universo, Ele instruiu os israelitas a construir o Tabernáculo. É o primeiro grande ato construtivo e colaborativo deles após atravessarem o Mar Vermelho, deixando o domínio do Egito e entrando em seu novo domínio como povo de D-s. Assim como o universo começou com um ato de criação, a história judaica (a história de um povo redimido) começa com um ato de criação.

O Universo (Bereishit)

O Mishkan (Shemot)

“E D-s fez o céu” (Gênesis 1:7)

“Eles farão para Mim um santuário” (Êxodo 25:8)

“E D-s fez os dois grandes luminares”(Gênesis 1:16)

“Eles farão uma arca” (Êxodo 25:10)

“E D-s fez os animais da terra” (Gênesis 1:25)

“Façam uma mesa” (Êxodo 25:23)

“E viu D-s tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom.” (Gênesis 1:31)

“Moshe viu toda a obra habilidosa, e eis que a tinham feito; conforme D-s lhe ordenara, assim a fizeram.” (Êxodo 39:43)

“Os céus e a terra, e tudo o que neles há, foram concluídos.” (Gênesis 2:1)

“Toda a obra do Tabernáculo da Tenda da Reunião foi concluída” (Êxodo 39:32)

“E D-s completou toda a obra que tinha feito” (Gênesis 2:2)

“E Moshe completou a obra” (Êxodo 40:33)

“E D-s abençoou” (Gênesis 2:3)

“E Moshe abençoou” (Êxodo 39:43)

“E a santificou” (Gênesis 2:3)

“E a santificarás, bem como todos os seus utensílios” (Êxodo 40:9)

As palavras-chave —  fazer, ver, completar, abençoar, santificar, trabalhar, contemplar  — são as mesmas em ambas as narrativas. O efeito é sugerir que a construção do Tabernáculo foi, para os israelitas, o que a criação do universo foi para D-s.


No entanto, a disparidade é extraordinária. A criação do universo ocupa apenas 34 versículos (Gênesis, capítulo 1 , juntamente com os três primeiros versículos de  Gênesis, capítulo 2 ). A construção do Tabernáculo ocupa centenas de versículos (Terumá, Tetzavé, parte de Ki Tissa, Vayakhel e Pekudei) — consideravelmente mais de dez vezes o tamanho do Tabernáculo. Por quê? O universo é vasto. O Santuário era pequeno, uma construção modesta de postes e cortinas que podia ser desmontada e transportada de um lugar para outro enquanto os israelitas viajavam pelo deserto. Dado que a extensão de qualquer passagem na Torá indica a importância que ela atribui a um episódio ou lei, por que dedicar tanto tempo e espaço ao Tabernáculo? A resposta é profunda. A Torá não é o livro de D-s para o homem. É o livro de D-s para a humanidade. Não é difícil para um Criador infinito e onipotente criar um lar para a humanidade. O difícil para os seres humanos, em sua finitude e vulnerabilidade, é criar um lar para D-s. No entanto, esse é o propósito, não apenas do Mishkan em particular, mas da Torá como um todo.


Um Midrash descreve isso de forma gráfica:

“Aconteceu no dia em que Moshe terminou de erguer o Tabernáculo” [Números 7:1] - Rabi [Judah HaNasi] disse: “Onde quer que se diga 'e aconteceu', refere-se a algo novo.” Rabi Shimon bar Yochai disse: “Onde quer que se diga 'e aconteceu', refere-se a algo que existiu no passado, foi interrompido e depois retornou à sua situação original.”
Este é o significado das palavras “Entrei no meu jardim, minha irmã, minha noiva” (Cântico dos Cânticos 5:1). Quando o Santo, bendito seja Ele, criou o universo, desejou ter uma morada nos mundos inferiores, assim como tem nos mundos superiores. Chamou Adam e disse: “De toda árvore do jardim podes comer livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás”. Adam, porém, transgrediu a ordem. O Santo, bendito seja Ele, disse-lhe: “Era isso que Eu queria: assim como tenho morada nos mundos superiores, também desejei ter morada nos mundos inferiores. Eu te ordenei uma coisa, e tu não a guardaste!”. Imediatamente, D-s retirou Sua Presença para os céus...
[O Midrash então lista os pecados subsequentes da humanidade, cada um dos quais fez com que a Presença Divina se afastasse mais um nível da Terra. Depois vieram Abraão e seus descendentes, cada um dos quais aproximou a Presença Divina um estágio mais...]
Então veio Moshe e trouxe a Presença Divina à Terra. Quando? Quando o Tabernáculo foi erguido. Então o Santo, bendito seja Ele, disse: “Entrei no Meu jardim, Minha irmã, Minha noiva” – cheguei àquilo que desejei [desde o princípio]. Este é o significado de “Aconteceu no dia em que Moshe terminou de erguer o Tabernáculo” – a origem da afirmação de Rabi Shimon bar Yochai de que “Onde quer que se diga 'e aconteceu', refere-se a algo que existiu no passado, foi interrompido e depois retornou à sua situação original”. Tanchumah [Buber], Naso, 24

O Tabernáculo, por menor e mais frágil que fosse, foi um evento de significado cósmico. Trouxe a Presença Divina [a Shechiná, que vem da mesma raiz que Mishkan] do céu para a terra. Como, porém, devemos entender essa ideia? Ela está contida em uma das palavras-chave da Torá, a saber, kadosh, “santo”.


Como observaram os místicos judeus, a criação envolve um ato de autolimitação por parte do Criador. A palavra  olam , “universo”, está diretamente relacionada à palavra  ne - elam , que significa “oculto”. Para que haja a possibilidade de um ser com livre-arbítrio, escolha e responsabilidade moral, D-s não pode ser uma Presença tangível e onipresente. Quando os israelitas ouviram a voz de D-s no Sinai, disseram a Moshe: “Fala conosco, e nós ouviremos ; mas que D-s não nos diga mais nada, para que não morramos ” (Êxodo 20:16). A Presença direta e imediata de D-s é avassaladora.


O infinito suplanta o finito. D-s é como um pai; e a menos que um pai solte a criança, ela jamais aprenderá a andar. Soltar significa que a criança tropeçará e cairá, mas não para sempre. Eventualmente, ela aprenderá a andar. O mesmo ocorre com outras formas de aprendizado prático. Em vários estágios, um pai deve se afastar progressivamente para dar espaço para o crescimento da criança. Da mesma forma, D-s deve se afastar para que a humanidade — feita à Sua imagem — se torne, eventualmente, Sua “parceira na obra da criação”. A criação é um ato de autolimitação divina.


Isso, porém, cria um paradoxo. Se D-s é perceptível em todos os lugares, não há espaço para a humanidade. Mas se D-s não é perceptível em lugar nenhum, como a humanidade pode conhecê-Lo, alcançá-Lo ou entender o que Ele quer de nós? A resposta — já insinuada no próprio relato da criação — é que D-s reserva, em diversas dimensões, um domínio que lhe é peculiar. O primeiro é no tempo — o sétimo dia (e, eventualmente, o sétimo mês, o sétimo ano e o jubileu ao final do sétimo ciclo de anos sabáticos). O segundo foi entre as nações após sua divisão em múltiplas línguas e civilizações — o povo da aliança, os filhos de Israel. O terceiro foi no espaço — o Tabernáculo. Cada um desses é sagrado, ou seja, um ponto em que a Presença Divina emerge da ocultação para a exposição, do disfarce para a revelação. Assim como o Shabat é para o tempo, o Tabernáculo era para o espaço:  kadosh, sagrado, separado, domínio de D-s. O sagrado é a arena metafísica onde o céu e a terra se encontram.


Essa reunião tem parâmetros específicos. É onde D-s reina, não a humanidade. Portanto, está associada à renúncia da vontade humana autônoma. Não há espaço para iniciativa privada por parte da humanidade. É por isso que, mais tarde, Nadav e Avihu morrem porque trazem uma oferenda de fogo que “não foi ordenada”. Assim como  chol  (“o secular”) é onde D-s pratica a autolimitação para criar espaço para a humanidade, kodesh  é onde os seres humanos se engajam na autolimitação para criar espaço para D-s.


Por isso, a construção do Tabernáculo pelos israelitas é o contraponto da criação do universo por D-s. Ambos foram atos de abnegação, nos quais um abriu espaço para o outro. Os detalhes minuciosos com que a Torá descreve a construção do Mishkan servem para mostrar que nada disso foi feito por iniciativa de Moshe, Betzalel ou dos próprios israelitas. Daí a ausência de paralelismo em um ponto crucial. Enquanto após a criação do universo lemos: “E viu D-s tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31), após a construção do Mishkan lemos: “Moshe viu toda a obra habilidosa, e eis que a tinham feito; como D-s ordenara, assim a tinham feito”.


Quando se trata do sagrado, "como D-s ordenou" é o equivalente humano do divino "foi muito bom".  Chol  é o espaço que D-s cria para o homem.  Kodesh  é o espaço que criamos para D-s. 

 

 

Texto original “Two Narratives of Creation” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l



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