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  • 31 de mar.
  • 5 min de leitura

PESSACH

A Pergunta Que Não Foi Feita

Pessach é uma noite de perguntas, mas há uma que não fazemos, e ela é significativa. Por que houve Pessach, afinal? Por que os anos de sofrimento e escravidão? Israel foi redimido. Recuperou sua liberdade. Retornou à terra que fora prometida a seus ancestrais séculos antes. Mas por que a necessidade do exílio? Por que D-s não providenciou para que Avraham, Yitschac ou Yaacov simplesmente herdassem a terra de Canaã? Se os israelitas não tivessem descido ao Egito nos dias de Yosef, não teria havido sofrimento nem necessidade de redenção. Por que Pessach?


A questão é inevitável, dados os termos da narrativa bíblica. A Torá indica que não houve nada de acidental nos eventos que antecederam a Páscoa. Séculos antes, Avraham fora avisado por D-s na "aliança entre as partes": "Saiba com certeza que seus descendentes serão estrangeiros em uma terra que não é a sua, e serão escravizados e maltratados por quatrocentos anos" (Gênesis 15:13). Fazemos repetidas referências ao longo da Hagadá ao fato de que toda a sequência de eventos fazia parte de um plano preordenado. D-s "já havia calculado o fim" do sofrimento. Quando Yaacov desceu ao Egito, ele foi, dizemos, "anus al pi ha-dibbur", "forçado por decreto divino".


O próprio D-s disse a Yaacov: "Não tenha medo de descer ao Egito, pois farei de você uma grande nação" (Gênesis 46:3), sem lhe dar qualquer indício dos sofrimentos que seus filhos enfrentariam. Os Sábios dizem que, no fim da vida de Yaacov, quando ele quis revelar a seus filhos o que lhes aconteceria "no fim dos tempos", o dom da profecia lhe foi tirado. Sem saber, os israelitas faziam parte de uma narrativa que havia sido escrita muito tempo antes.


Um Midrash – um dos poucos lugares em que os Sábios expressaram sua inquietação com essa estranha estratégia da providência – expressa o problema de forma muito precisa:

O Santo, bendito seja, buscou cumprir o decreto que havia falado a Avraham: "Seus descendentes serão estrangeiros em uma terra que não é a sua". Então, Ele fez com que Yaacov amasse Yosef mais do que seus outros filhos, que os irmãos tivessem inveja e odiassem Yosef, que o vendessem aos ismaelitas, que o levariam para o Egito, e que Yaacov ouvisse que Yosef ainda estava vivo e morando lá. O resultado foi que Yaacov e as tribos foram para o Egito e se tornaram escravos.
Rabi Tanhuma disse: A que isso pode ser comparado? A um pastor que deseja colocar o jugo em uma vaca, mas a vaca se recusa a recebê-lo. O que o pastor faz? Ele tira um bezerro da vaca e o leva para o campo onde a aragem será feita. O bezerro começa a chorar pela mãe. A vaca, ao ouvir o choro do bezerro, corre para o campo e lá, enquanto sua atenção está distraída e ela pensa apenas em seu filhote, o jugo é colocado sobre ela. Tanhuma, Vayeshev, 4.

O roteiro que D-s escreve para o Seu povo é, por vezes, tortuoso e aterrador. Os Sábios aplicaram-lhe a expressão incisiva:

'Quão maravilhoso é D-s em Sua maneira de lidar com a humanidade.'  Salmo 66:5

Por que Ele queria que Seu povo experimentasse a escravidão? Por que o exílio no Egito foi o prelúdio necessário para a vida deles como uma nação soberana na Terra Prometida?

O livro de Jonas conta uma história peculiar. Jonas foi incumbido por D-s de transmitir uma advertência ao povo de Nínive. Seus caminhos eram corruptos; a cidade seria destruída a menos que se arrependessem. Jonas foge de sua missão, e ao longo do livro descobrimos o porquê. Ele sabia, diz, que o povo de Nínive, ao ouvir as palavras do profeta, se arrependeria e seria perdoado. Para Jonas, isso era injusto. Quando as pessoas erram, devem sofrer as consequências e ser punidas. Isso era particularmente verdadeiro no caso de Nínive, uma cidade dos assírios que seriam a causa de tanto sofrimento a Israel. O perdão de D-s entrava em conflito com o senso de justiça retributiva de Jonas. D-s decide ensinar a Jonas uma lição moral. Ele lhe envia uma cabaça para lhe dar sombra do sol escaldante. No dia seguinte, envia um verme que faz a cabaça murchar e morrer. Jonas mergulha em uma depressão suicida. D-s então lhe diz:

'Você se preocupou com esta cabaça, embora não a tenha cultivado nem a feito crescer. Ela brotou de uma noite para o dia e morreu na outra noite. Mas Nínive tem mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos animais. Não deveria eu me preocupar com essa grande cidade?'  Jonas 4:10-11

D-s ensina Jonas a se importar, dando-lhe algo e depois tirando-o. A perda nos ensina a valorizar as coisas, embora geralmente tarde demais.  O que temos e depois perdemos, não consideramos garantido.  A visão religiosa não se trata de ver coisas que não existem. Trata-se de ver as coisas que existem e sempre existiram, mas às quais nunca demos atenção ou notamos.  A fé é uma forma de atenção. É uma meditação constante sobre o milagre do que é, porque poderia não ter existido.  O que perdemos e recebemos de volta, aprendemos a valorizar de uma maneira que não faríamos se nunca o tivéssemos perdido. A fé é sobre não considerar as coisas como garantidas.


Esta é a chave para compreender toda uma série de narrativas no livro de Gênesis. Sarah, Rivka e Rachel anseiam por ter filhos, mas descobrem que são inférteis. Somente por meio da intervenção de D-s elas conseguem conceber. Avraham passa pela provação do sacrifício de Yitschac, apenas para descobrir que D-s, que lhe pediu para sacrificar seu filho, diz "Pare" no último momento. É assim que a família da aliança aprende que ter filhos não é algo que simplesmente acontece. É assim que o povo de Israel aprendeu, no alvorecer de sua história, a  nunca considerar os filhos como algo garantido.  A continuidade judaica, a criação de novas gerações de judeus, não é natural, inevitável, um processo que se resolve sozinho. Requer esforço e atenção constantes. O mesmo se aplica à liberdade.


A liberdade no sentido bíblico – a autodisciplina responsável – não é natural. Pelo contrário, a ordem natural nas sociedades humanas, assim como no reino animal, é que os fortes predam e dominam os fracos. Nada é mais raro ou mais difícil de alcançar do que uma sociedade de igual dignidade para todos. A mera concepção dessa ideia exige um profundo desapego à natureza. A Torá nos conta como isso foi alcançado, por meio da experiência histórica de um povo que, dali em diante, seria o portador da mensagem de D-s para a humanidade.


Israel precisou perder sua liberdade para poder valorizá-la.  Só damos atenção plena àquilo que perdemos. Israel precisou sofrer a experiência da escravidão e da degradação para aprender, saber e sentir intuitivamente que há algo moralmente errado na opressão. Nem Israel, nem qualquer outro povo, poderia carregar essa mensagem perpetuamente sem revivê-la a cada ano, saboreando o gosto amargo do sofrimento e a amargura da escravidão. Assim nasceu, no auge da nação, um anseio por liberdade que estava no cerne de sua memória e identidade.


Se Israel tivesse alcançado a condição de nação imediatamente na era patriarcal, sem a experiência do exílio e da perseguição, teria – como tantas outras nações na história – tomado a liberdade como garantida; e quando a liberdade é tomada como garantida, ela já começou a ser perdida. Israel tornou-se o povo concebido na escravidão para que jamais deixasse de ansiar pela liberdade – e de saber que a liberdade está longe de ser natural. Ela exige vigilância constante, luta moral incessante.

Israel descobriu a liberdade ao perdê-la. Que jamais a perca novamente.

 

 

Texto original “The Unasked Question” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l

 

 


  • 25 de mar.
  • 7 min de leitura

TZAV

Violência e o Sagrado

Por que sacrifícios? Certamente, eles não fazem parte da vida do judaísmo desde a destruição do Segundo Templo, há quase dois mil anos. Mas por que, se são um meio para um fim, D-s escolheu esse fim? Esta é, sem dúvida, uma das questões mais profundas do judaísmo, e há muitas respostas. Aqui, quero explorar apenas uma delas, apresentada inicialmente pelo pensador judeu do início do século XV, o rabino Joseph Albo, em seu Sefer HaIkkarim


A teoria de Albo partiu não dos sacrifícios, mas de duas outras questões. A primeira: Por que, depois do Dilúvio, D-s permitiu que os seres humanos comessem carne? (Gênesis 9:3-5). Inicialmente, nem os seres humanos nem os animais comiam carne (Gênesis 1:29-30). O que levou D-s a, por assim dizer, mudar de ideia? A segunda: O que havia de errado com o primeiro ato de sacrifício, a oferta de Kayin (Caim) de “alguns frutos da terra” (Gênesis 4:3-5)? A rejeição dessa oferta por D-s levou diretamente ao primeiro assassinato, quando Kayin matou Hevel (Abel). O que estava em jogo na diferença entre as ofertas que Kayin e Hevel trouxeram a D-s? 


Albo acreditava que matar animais para alimentação era intrinsecamente errado. Envolvia tirar a vida de um ser senciente para satisfazer nossas necessidades. Kayin também sabia disso. Ele acreditava que havia um forte parentesco entre humanos e outros animais. Por isso, ofereceu não um sacrifício animal, mas sim um vegetal. Seu erro, segundo Albo, foi ter trazido frutas, não vegetais – o mais nobre, e não o mais humilde, dos produtos não cárneos. Hevel, por outro lado, acreditava que havia uma diferença qualitativa entre pessoas e animais. D-s não havia dito aos primeiros humanos: “Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra” (Gênesis 1:28)? Foi por isso que Hevel ofereceu um sacrifício animal.


Quando Kayin viu que o sacrifício de Hevel fora aceito, enquanto o seu não, raciocinou da seguinte maneira: se D-s, que nos proíbe de matar animais para alimentação, permite e até mesmo favorece o sacrifício de um animal, e se, como Kayin acreditava, não há diferença fundamental entre seres humanos e animais, então oferecerei a D-s o ser vivo mais elevado, ou seja, meu irmão Hevel. Segundo esse raciocínio, afirma o Rabino Albo, Kayin matou Hevel como um sacrifício humano.


Por isso D-s permitiu o consumo de carne após o Dilúvio. Antes do Dilúvio, o mundo estava "cheio de violência". Talvez a violência seja inerente à natureza humana. Se a humanidade tivesse permissão para existir, D-s teria que diminuir Suas exigências. Deixem os humanos matarem animais, disse Ele, em vez de matarem seres humanos – a única forma de vida que não só é criação de D-s, mas também feita à Sua imagem. Daí a sequência de versículos quase ininteligível após Noach e sua família chegarem em terra seca:

Então Noach construiu um altar ao Senhor e, tomando alguns de todos os animais puros e aves puras, ofereceu holocaustos sobre ele. O Senhor sentiu o aroma agradável e disse em seu coração: "Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, embora toda a inclinação do seu coração seja má desde a infância..."  Gênesis 8:20-21

Então D-s abençoou Noach e seus filhos e lhes disse…

Tudo o que vive e se move servirá de alimento para vocês. Assim como lhes dei as plantas verdes, agora lhes dou tudo…

Quem derramar sangue humano, pelo homem terá o seu sangue derramado; pois D-s criou o ser humano à sua imagem.
Tudo o que se move e vive servirá de alimento para vocês; eu os dou a vocês como se fossem plantas verdes. Mas... quem derramar sangue humano, pelo homem terá seu sangue derramado, pois o homem foi feito à imagem de D-s.  Gênesis 9:3-6

Segundo Albo, a lógica da passagem é clara. Noach oferece um sacrifício animal em agradecimento por ter sobrevivido ao Dilúvio. D-s percebe que os seres humanos precisam dessa forma de se expressar. Eles são geneticamente predispostos à violência (“toda inclinação do seu coração é má desde a infância”). Para que a sociedade sobreviva, os humanos precisarão ser capazes de direcionar sua violência contra animais não humanos, seja como alimento ou como oferendas sacrificiais. A linha divisória crucial é entre o humano e o não humano. A permissão para matar animais é acompanhada por uma proibição absoluta contra o assassinato de seres humanos, “pois D-s criou o ser humano à sua imagem”.


Não é que D-s aprove o assassinato de animais, seja para sacrifício ou alimentação, mas proibir isso aos seres humanos, dada a sua predisposição genética ao derramamento de sangue, é utópico. Não é para agora, mas para o fim dos tempos. Até lá, a solução menos ruim é permitir que as pessoas matem animais em vez de assassinar seus semelhantes. Os sacrifícios de animais são uma concessão à natureza humana. [1] Os sacrifícios são um substituto para a violência dirigida contra a humanidade.


O pensador contemporâneo que mais contribuiu para reviver essa compreensão é o crítico literário e antropólogo filosófico franco-americano René Girard, em livros como A Violência e o SagradoO Bode Expiatório e Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo. O denominador comum nos sacrifícios, argumenta ele, é:

…violência interna – todas as dissensões, rivalidades, ciúmes e disputas dentro da comunidade que os sacrifícios visam suprimir. O propósito do sacrifício é restaurar a harmonia na comunidade, reforçar o tecido social. Tudo o mais deriva disso. [2]

A pior forma de violência dentro e entre as sociedades é a vingança, “um processo interminável e infinitamente repetitivo”. Isso está em consonância com o que Hillel disse ao ver um crânio humano flutuando na água:

"Porque vocês afogaram outros, eles afogaram vocês, e aqueles que os afogaram acabarão se afogando também."  Mishná Avot 2:7

Não há um fim natural para o ciclo de retaliação e vingança. Os Montéquios continuam matando e sendo mortos pelos Capuletos (na ficção de Shakespeare “Romeu e Julieta”). O mesmo acontece com os Tattaglias e os Corleones (no romance e filme “O poderoso chefão"), e com outros grupos rivais na ficção e na história. É um ciclo destrutivo que devastou comunidades inteiras. Segundo Girard, esse era o problema que o ritual religioso foi desenvolvido para resolver. O principal ato religioso, diz ele, é o sacrifício, e o principal sacrifício é o bode expiatório. Se as tribos A e B, que estão em guerra, puderem sacrificar um membro da tribo C, ambas terão saciado seu desejo de derramamento de sangue sem atrair vingança, especialmente se a tribo C não estiver em posição de retaliar. Os sacrifícios desviam a energia destrutiva da reciprocidade violenta.


Então, se a violência está intrinsecamente ligada à natureza humana, por que os sacrifícios são uma característica das sociedades antigas e não das modernas? Porque, argumenta Girard, existe outra maneira, mais eficaz, de acabar com a vingança:

A vingança é um círculo vicioso cujo efeito sobre as sociedades primitivas só pode ser conjecturado. Para nós, o círculo foi quebrado. Devemos nossa boa sorte a uma de nossas instituições sociais acima de todas: nosso sistema judicial, que serve para desviar a ameaça da vingança. O sistema não suprime a vingança; em vez disso, limita-se efetivamente a um único ato de represália, executado por uma autoridade soberana especializada nessa função específica. As decisões do judiciário são invariavelmente apresentadas como a palavra final sobre a vingança. [3]

A terminologia de Girard aqui não é uma com a qual possamos concordar. Justiça não é vingança. Retribuição não é vingança. A vingança é inerentemente um "Eu-Tu" ou "Nós-Eles". É pessoal. A retribuição é impessoal. Não se trata mais dos Montéquios contra os Capuletos, mas de ambos sob o julgamento imparcial da lei. Mas o argumento principal de Girard está correto e é essencial. O único antídoto eficaz para a violência é o Estado de Direito.


A teoria de Girard confirma a visão de Albo. O sacrifício (assim como o consumo de carne) entrou no judaísmo como um substituto para a violência. Também nos ajuda a compreender a profunda percepção dos profetas de que os sacrifícios não são fins em si mesmos, mas parte do programa da Torá para criar um mundo redimido do ciclo interminável de vingança. A outra parte desse programa, e o maior desejo de D-s, é um mundo governado pela justiça. Essa, como lembramos, foi a Sua primeira ordem a Avraham: “Instruir a seus filhos e a sua casa depois deles a guardar o caminho do Senhor, praticando a justiça e a retidão”. (Gênesis 18:19)


Será que ultrapassamos, portanto, a fase da história humana em que os sacrifícios de animais tinham algum propósito? Será que a justiça se tornou uma realidade tão poderosa que já não precisamos de rituais religiosos para desviar a violência entre seres humanos? Infelizmente, a resposta é não. O colapso da União Soviética, a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria levaram alguns pensadores a argumentar que tínhamos chegado ao “fim da história”. Não haveria mais guerras motivadas por ideologia. Em vez disso, o mundo se voltaria para a economia de mercado e a democracia liberal. [4]


A realidade, porém, era radicalmente diferente. Houve ondas de conflitos étnicos e violência na Bósnia, Kosovo, Chechênia e Ruanda, seguidas por conflitos ainda mais sangrentos em todo o Oriente Médio, África subsaariana e partes da Ásia. Em seu livro A Honra do Guerreiro, Michael Ignatieff ofereceu a seguinte explicação para o ocorrido:

O principal obstáculo moral no caminho da reconciliação é o desejo de vingança. Ora, a vingança é geralmente vista como uma emoção vil e indigna, e por ser vista dessa forma, seu profundo poder moral sobre as pessoas raramente é compreendido. Mas a vingança – do ponto de vista moral – é um desejo de manter a fidelidade aos mortos, de honrar sua memória retomando a causa que eles deixaram. A vingança mantém a fidelidade entre as gerações…
Este ciclo de recriminação intergeracional não tem fim lógico... Mas é justamente a impossibilidade da vingança intergeracional que aprisiona as comunidades na compulsão de repeti-la... A reconciliação não tem chance contra a vingança a menos que respeite as emoções que a sustentam, a menos que possa substituir o respeito inerente à vingança por rituais nos quais as comunidades, outrora em guerra, aprendam a lamentar seus mortos juntas.
Michael Ignatieff, A Honra do Guerreiro: Guerra Étnica e a Consciência Moderna (Toronto: Penguin, 2006), pp. 188–190.

Longe de se referir a uma era há muito desaparecida e esquecida, as leis do sacrifício nos dizem três coisas tão importantes agora como naquela época: Primeiro, a violência ainda faz parte da natureza humana, nunca tão perigosa quanto quando combinada com uma ética de vingança. Segundo, em vez de negar sua existência, devemos encontrar maneiras de redirecioná-la para que não exija ainda mais sacrifícios humanos. Terceiro, a única alternativa definitiva aos sacrifícios, sejam eles de animais ou humanos, é aquela proposta há milênios pelos profetas do antigo Israel, poucos com tanta força quanto Amós:

Ainda que me tragam holocaustos e ofertas de cereais,não os aceitarei...Mas que a justiça corra como um rio,e a retidão como um ribeiro perene.  Amós 5:23-24

 

NOTAS [1] Sobre por que D-s nunca escolhe mudar a natureza humana, veja Rambam, O Guia dos Perplexos , III:32. [2] René Girard, Violência e o Sagrado (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1977), p. 8 [3] Ibid., p. 15. [4] Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem (Nova Iorque: Free Press, 1992).

 

Texto original “Violence and the Sacred” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l



  • 17 de mar.
  • 6 min de leitura

VAYKRA

Entre o Destino e o Acaso

O terceiro livro da Torá é conhecido em português como Levítico, palavra derivada do grego e do latim, que significa "pertencente aos levitas". Isso reflete o fato de que, no judaísmo, os sacerdotes — todos descendentes diretos de Aharon — pertenciam à tribo de Levi, e que o antigo nome rabínico para o livro era Torat Kohanim, "a lei dos sacerdotes". É um título apropriado. Enquanto Êxodo e Números são repletos de narrativas, o livro entre eles trata principalmente de sacrifícios e dos rituais associados, primeiro ao Tabernáculo e depois ao Templo de Jerusalém. É, como o nome Torat Kohanim implica, sobre os sacerdotes e sua função como guardiões do sagrado.


Em contraste, o nome tradicional Vaikra, "E Ele chamou", parece meramente acidental. Vaykra é simplesmente a primeira palavra do livro, e não há nenhuma conexão entre ela e os assuntos que ele aborda. A verdade, argumentarei aqui, é outra. Existe uma profunda conexão entre a palavra Vaykra e a mensagem subjacente do livro como um todo.

Para entender isso, devemos observar que há algo incomum na forma como a palavra aparece em um Sefer Torá neste caso específico. Sua última letra, um aleph, é escrita pequena — quase como se mal existisse. As letras de tamanho padrão formam a palavra vayikar, que significa “ele encontrou” ou “ele se deparou por acaso”.


Diferentemente de vaykra, que se refere a um chamado, uma convocação, um encontro a pedido, vayikar sugere um encontro acidental, um mero acontecimento.

Com sua sensibilidade às nuances, os Sábios notaram a diferença entre o chamado a Moshe com o qual o livro começa e a aparição de D-s ao profeta pagão Bilam, que não usa a mesma forma da palavra. Eis como o Midrash expressa isso:

Qual é a diferença entre os profetas de Israel e os profetas das nações pagãs do mundo?... Rabi Hama ben Hanina disse: O Santo, bendito seja Ele, revela-se às nações pagãs de forma incompleta, como está escrito: “E o Senhor apareceu a Bilam”, enquanto aos profetas de Israel Ele aparece de forma completa, como está escrito: “E chamou Moshe”.

Rashi é mais explícito:

Todas as comunicações [de D-s] [a Moshe], quer usem as palavras “falar”, “dizer” ou “ordenar”, eram precedidas por um chamado [keri'ah], que é um termo de carinho usado pelos anjos quando se dirigem uns aos outros, como está escrito: “E um chamava ao outro” [vekara zeh el zeh, Isaías 6:3]. No entanto, para os profetas das nações do mundo, Sua aparição é descrita por uma expressão que significa um encontro casual e impureza, como diz: “E o Senhor apareceu a Bilam”.

O Baal HaTurim vai um passo além, comentando sobre o pequeno aleph:

Moshe era ao mesmo tempo grandioso e humilde, e desejava apenas escrever Vayikar, que significa "acaso", como se o Santo, bendito seja Ele, lhe tivesse aparecido apenas em sonho, como se diz de Bilam [vayikar , sem um aleph] — sugerindo que D-s lhe apareceu por mero acaso. Contudo, D-s lhe disse para escrever a palavra com um aleph. Moshe então lhe disse, por causa de sua extrema humildade, que escreveria apenas um aleph menor do que os outros alephs da Torá, e de fato o escreveu pequeno.
Algo de grande significado está sendo sugerido aqui, mas antes de prosseguirmos, voltemos ao final do livro. Pouco antes do fim, na parashá de Bechukotai, ocorre uma das duas passagens mais terríveis da Torá. É conhecida como Tochachah (a repreensão: a outra aparece em Devarim 28) e detalha o terrível destino que aguarda o povo judeu se este não cumprir sua aliança com D-s:
Quanto aos sobreviventes, semearei tamanha insegurança em seus corações, nas terras de seus inimigos, que o som de uma folha ao vento os fará correr como se fugissem da espada; e cairão, embora ninguém os persiga. Tropeçarão uns nos outros como se fugissem da espada, quando ninguém os perseguir. Não terão força para resistir aos seus inimigos. Perecerão entre as nações; as terras de seus inimigos os devorarão. Levítico 26:36-38

Apesar da natureza chocante do aviso prévio, a passagem termina com uma nota de consolo:

Eu me lembrarei da minha aliança com Yaakov; e da minha aliança com Yitzchak e da minha aliança com Avraham, também me lembrarei, e me lembrarei da terra... Contudo, mesmo quando estiverem na terra dos seus inimigos, não os rejeitarei, nem os desprezarei, nem os aniquilarei, nem quebrarei a minha aliança com eles, porque eu sou o Senhor, o seu D-s.  Levítico 26:42-44

A palavra-chave da passagem é keri. Ela aparece exatamente sete vezes na tochachah – um sinal claro de sua importância. Aqui estão dois exemplos:

Se, apesar de tudo isso, vocês ainda não Me ouvirem – se ainda andarem contrariamente a Mim – então Eu, em Minha fúria, andarei contrariamente a vocês. Eu os castigarei sete vezes mais por seus pecados. Levítico 26:27-28

O que significa a palavra keri ? Traduzi-a aqui como “contrário”. Existem outras sugestões. O Targum lê como “endureçam-se”, Rashbam como “recusem”, Ibn Ezra como “excessivamente confiantes”, Saadia como “rebeldes”.

No entanto, Rambam dá uma interpretação completamente diferente, e o faz num contexto haláchico:

Um mandamento bíblico positivo prescreve a oração e o toque de alarme com trombetas sempre que uma adversidade atingir a comunidade. Pois quando as Escrituras dizem: “Contra o adversário que vos oprime, então soai o alarme com as trombetas”, o significado é: Clamai em oração e soai o alarme... Este é um dos caminhos para o arrependimento, pois quando a comunidade clama em oração e soa o alarme ao ser ameaçada por problemas, todos percebem que o mal os atingiu como resultado de seus próprios erros... e que o arrependimento fará com que o problema seja removido.
Se, porém, o povo não clamar em oração e não soar o alarme, mas simplesmente disser que é o modo como o mundo age, que tais coisas lhes aconteçam, e que seu problema é pura coincidência, terá escolhido um caminho cruel que o fará persistir em seus erros e, assim, atrair ainda mais problemas. Pois quando as Escrituras dizem: “Se vocês continuarem a ser keri para comigo, então, na Minha ira, Eu serei keri para com vocês”, significa: “Se, quando eu lhes trouxer problemas para levá-los ao arrependimento, vocês disserem que o problema é puramente acidental, então acrescentarei ao seu problema a ira de terem sido deixados ao acaso”.  Mishneh Torá, Taaniyot, 1:1-3

Rambam entende que keri está relacionado à palavra mikreh, que significa “acaso”. As maldições, em sua interpretação, não são uma retribuição divina propriamente dita. Não será D-s quem fará Israel sofrer, mas sim outros seres humanos. O que acontecerá é simplesmente que D-s retirará Sua proteção. Israel terá que enfrentar o mundo sozinho, sem a presença protetora de D-s. Para Rambam, isso é uma simples e inescapável medida por medida (middah kenegged middah). Se Israel acreditar na Providência Divina, será abençoado pela Providência Divina. Se vir a história como mero acaso – o que Joseph Heller, autor de Catch-22, chamou de “um saco de lixo de coincidências aleatórias aberto pelo vento” – então, de fato, será deixado ao acaso. Sendo uma nação pequena e vulnerável, o acaso não lhe será favorável.


Agora estamos em condições de compreender a notável proposição que liga o início de Vayikra ao seu fim — uma das mais profundas verdades espirituais. A diferença entre mikra e mikreh — entre a história como chamado de D-s e a história como uma sucessão de eventos sem propósito ou significado subjacente — é, na língua hebraica, quase imperceptível. As palavras soam iguais. A única diferença é que a primeira possui um aleph, enquanto a segunda não (o significado do aleph é óbvio: a primeira letra do alfabeto, a primeira letra dos Dez Mandamentos, o “Eu” de D-s).


A letra aleph é quase inaudível. Sua aparição em um Sefer Torá no início de Vaykra (o “aleph pequeno”) é quase invisível. Não espere — a Torá está insinuando — que a presença de D-s na história seja sempre tão clara e inequívoca quanto foi durante o Êxodo do Egito e a divisão do Mar Vermelho. Na maior parte do tempo, dependerá da sua própria sensibilidade. Para aqueles que olham, será visível. Para aqueles que escutam, poderá ser ouvida. Mas primeiro você precisa olhar e escutar. Se você optar por não ver nem ouvir, então Vaykra se tornará vayikar. O chamado será inaudível. A história parecerá mera coincidência.


Não há nada de incoerente nessa ideia. Aqueles que acreditam nela terão muitos argumentos para justificá-la. De fato, diz D-s na Tochachah: se você acredita que a história é acaso, então ela se tornará assim. Mas, na verdade, não é. A história do povo judeu — como até mesmo não judeus como Pascal, Rousseau e Tolstói afirmaram eloquentemente — testemunha a presença de D-s em seu meio. Somente assim um povo tão pequeno, vulnerável e relativamente impotente pôde sobreviver e ainda dizer hoje — após o Holocausto — Am Yisrael Chai, o povo judeu vive. E assim como a história judaica não é mero acaso, também não é mera coincidência que a primeira palavra do livro central da Torá seja Vaykra, “E Ele chamou”.


Ser judeu é acreditar que o que nos acontece como povo é o chamado de D-s para nos tornarmos “um reino de sacerdotes e uma nação santa”.

 

Texto original “Between Destiny and Chance” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l

 


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