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PESSACH

  • 31 de mar.
  • 5 min de leitura

PESSACH

A Pergunta Que Não Foi Feita

Pessach é uma noite de perguntas, mas há uma que não fazemos, e ela é significativa. Por que houve Pessach, afinal? Por que os anos de sofrimento e escravidão? Israel foi redimido. Recuperou sua liberdade. Retornou à terra que fora prometida a seus ancestrais séculos antes. Mas por que a necessidade do exílio? Por que D-s não providenciou para que Avraham, Yitschac ou Yaacov simplesmente herdassem a terra de Canaã? Se os israelitas não tivessem descido ao Egito nos dias de Yosef, não teria havido sofrimento nem necessidade de redenção. Por que Pessach?


A questão é inevitável, dados os termos da narrativa bíblica. A Torá indica que não houve nada de acidental nos eventos que antecederam a Páscoa. Séculos antes, Avraham fora avisado por D-s na "aliança entre as partes": "Saiba com certeza que seus descendentes serão estrangeiros em uma terra que não é a sua, e serão escravizados e maltratados por quatrocentos anos" (Gênesis 15:13). Fazemos repetidas referências ao longo da Hagadá ao fato de que toda a sequência de eventos fazia parte de um plano preordenado. D-s "já havia calculado o fim" do sofrimento. Quando Yaacov desceu ao Egito, ele foi, dizemos, "anus al pi ha-dibbur", "forçado por decreto divino".


O próprio D-s disse a Yaacov: "Não tenha medo de descer ao Egito, pois farei de você uma grande nação" (Gênesis 46:3), sem lhe dar qualquer indício dos sofrimentos que seus filhos enfrentariam. Os Sábios dizem que, no fim da vida de Yaacov, quando ele quis revelar a seus filhos o que lhes aconteceria "no fim dos tempos", o dom da profecia lhe foi tirado. Sem saber, os israelitas faziam parte de uma narrativa que havia sido escrita muito tempo antes.


Um Midrash – um dos poucos lugares em que os Sábios expressaram sua inquietação com essa estranha estratégia da providência – expressa o problema de forma muito precisa:

O Santo, bendito seja, buscou cumprir o decreto que havia falado a Avraham: "Seus descendentes serão estrangeiros em uma terra que não é a sua". Então, Ele fez com que Yaacov amasse Yosef mais do que seus outros filhos, que os irmãos tivessem inveja e odiassem Yosef, que o vendessem aos ismaelitas, que o levariam para o Egito, e que Yaacov ouvisse que Yosef ainda estava vivo e morando lá. O resultado foi que Yaacov e as tribos foram para o Egito e se tornaram escravos.
Rabi Tanhuma disse: A que isso pode ser comparado? A um pastor que deseja colocar o jugo em uma vaca, mas a vaca se recusa a recebê-lo. O que o pastor faz? Ele tira um bezerro da vaca e o leva para o campo onde a aragem será feita. O bezerro começa a chorar pela mãe. A vaca, ao ouvir o choro do bezerro, corre para o campo e lá, enquanto sua atenção está distraída e ela pensa apenas em seu filhote, o jugo é colocado sobre ela. Tanhuma, Vayeshev, 4.

O roteiro que D-s escreve para o Seu povo é, por vezes, tortuoso e aterrador. Os Sábios aplicaram-lhe a expressão incisiva:

'Quão maravilhoso é D-s em Sua maneira de lidar com a humanidade.'  Salmo 66:5

Por que Ele queria que Seu povo experimentasse a escravidão? Por que o exílio no Egito foi o prelúdio necessário para a vida deles como uma nação soberana na Terra Prometida?

O livro de Jonas conta uma história peculiar. Jonas foi incumbido por D-s de transmitir uma advertência ao povo de Nínive. Seus caminhos eram corruptos; a cidade seria destruída a menos que se arrependessem. Jonas foge de sua missão, e ao longo do livro descobrimos o porquê. Ele sabia, diz, que o povo de Nínive, ao ouvir as palavras do profeta, se arrependeria e seria perdoado. Para Jonas, isso era injusto. Quando as pessoas erram, devem sofrer as consequências e ser punidas. Isso era particularmente verdadeiro no caso de Nínive, uma cidade dos assírios que seriam a causa de tanto sofrimento a Israel. O perdão de D-s entrava em conflito com o senso de justiça retributiva de Jonas. D-s decide ensinar a Jonas uma lição moral. Ele lhe envia uma cabaça para lhe dar sombra do sol escaldante. No dia seguinte, envia um verme que faz a cabaça murchar e morrer. Jonas mergulha em uma depressão suicida. D-s então lhe diz:

'Você se preocupou com esta cabaça, embora não a tenha cultivado nem a feito crescer. Ela brotou de uma noite para o dia e morreu na outra noite. Mas Nínive tem mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos animais. Não deveria eu me preocupar com essa grande cidade?'  Jonas 4:10-11

D-s ensina Jonas a se importar, dando-lhe algo e depois tirando-o. A perda nos ensina a valorizar as coisas, embora geralmente tarde demais.  O que temos e depois perdemos, não consideramos garantido.  A visão religiosa não se trata de ver coisas que não existem. Trata-se de ver as coisas que existem e sempre existiram, mas às quais nunca demos atenção ou notamos.  A fé é uma forma de atenção. É uma meditação constante sobre o milagre do que é, porque poderia não ter existido.  O que perdemos e recebemos de volta, aprendemos a valorizar de uma maneira que não faríamos se nunca o tivéssemos perdido. A fé é sobre não considerar as coisas como garantidas.


Esta é a chave para compreender toda uma série de narrativas no livro de Gênesis. Sarah, Rivka e Rachel anseiam por ter filhos, mas descobrem que são inférteis. Somente por meio da intervenção de D-s elas conseguem conceber. Avraham passa pela provação do sacrifício de Yitschac, apenas para descobrir que D-s, que lhe pediu para sacrificar seu filho, diz "Pare" no último momento. É assim que a família da aliança aprende que ter filhos não é algo que simplesmente acontece. É assim que o povo de Israel aprendeu, no alvorecer de sua história, a  nunca considerar os filhos como algo garantido.  A continuidade judaica, a criação de novas gerações de judeus, não é natural, inevitável, um processo que se resolve sozinho. Requer esforço e atenção constantes. O mesmo se aplica à liberdade.


A liberdade no sentido bíblico – a autodisciplina responsável – não é natural. Pelo contrário, a ordem natural nas sociedades humanas, assim como no reino animal, é que os fortes predam e dominam os fracos. Nada é mais raro ou mais difícil de alcançar do que uma sociedade de igual dignidade para todos. A mera concepção dessa ideia exige um profundo desapego à natureza. A Torá nos conta como isso foi alcançado, por meio da experiência histórica de um povo que, dali em diante, seria o portador da mensagem de D-s para a humanidade.


Israel precisou perder sua liberdade para poder valorizá-la.  Só damos atenção plena àquilo que perdemos. Israel precisou sofrer a experiência da escravidão e da degradação para aprender, saber e sentir intuitivamente que há algo moralmente errado na opressão. Nem Israel, nem qualquer outro povo, poderia carregar essa mensagem perpetuamente sem revivê-la a cada ano, saboreando o gosto amargo do sofrimento e a amargura da escravidão. Assim nasceu, no auge da nação, um anseio por liberdade que estava no cerne de sua memória e identidade.


Se Israel tivesse alcançado a condição de nação imediatamente na era patriarcal, sem a experiência do exílio e da perseguição, teria – como tantas outras nações na história – tomado a liberdade como garantida; e quando a liberdade é tomada como garantida, ela já começou a ser perdida. Israel tornou-se o povo concebido na escravidão para que jamais deixasse de ansiar pela liberdade – e de saber que a liberdade está longe de ser natural. Ela exige vigilância constante, luta moral incessante.

Israel descobriu a liberdade ao perdê-la. Que jamais a perca novamente.

 

 

Texto original “The Unasked Question” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l

 

 


 
 
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