top of page

VAYERA

27 de out.
9 min de leitura

VAYERA

A Música da Ambivalência

A Torá não possui uma palavra para ambivalência (a mais próxima é a pergunta de Elias aos israelitas adoradores de Baal: “Até quando vocês vão vacilar entre duas opiniões?”). Ela, no entanto, possui uma melodia para isso. Trata-se da rara nota conhecida como shalshelet. Ela aparece três vezes em Bereshit, cada vez em um momento de crise para o indivíduo em questão. [1] Em cada caso, significa uma crise existencial. O agente é chamado a fazer uma escolha, da qual dependerá todo o seu futuro, mas descobre que não consegue. Ele está dividido entre duas alternativas, ambas exercendo forte influência sobre ele. Ele precisa resolver o dilema de uma forma ou de outra, mas qualquer uma delas envolverá abrir mão de tentações profundamente sentidas ou aspirações arraigadas. É um momento de grande drama psicológico.


O shalshelet é uma nota incomum. Ela sobe e desce, sobe e desce, como se não conseguisse avançar para a próxima nota. Foi o comentarista do século XVI, Rabi Joseph Ibn Caspi (em seu comentário a Gênesis 19:16), quem melhor compreendeu o que ela pretendia transmitir, ou seja, um estado psicológico de incerteza e indecisão. A notação gráfica do próprio shalshelet se assemelha a um raio, um "movimento em ziguezague" (tenuah me'uvetet), um sinal que se move repetidamente para frente e para trás. Transmite um movimento congelado — o que Hamlet chamou de matiz natural da resolução obscurecida pela pálida tonalidade do pensamento — no qual o agente é dilacerado por um conflito interno. O shalshelet é a música da ambivalência.


Um exemplo disso ocorre em Gênesis 24:12. Avraham enviou seu servo (não identificado no texto, mas que os comentaristas consideram ser Eliezer) para encontrar uma esposa para seu filho Yitzchak. Ele foi à cidade de Haran, onde a família de Avraham permaneceu enquanto o próprio Avraham seguia para a terra de Canaã. Ao chegar ao poço da cidade, Eliezer propôs um teste: a mulher que viesse tirar água, oferecesse um pouco ao viajante e, além disso, desse água aos seus camelos, seria a escolhida por D-s para o filho de seu senhor. Sobre o “e ele disse”, que introduz seu pedido a D-s para que este teste fosse bem-sucedido, a tradição massorética colocou um shalshelet.


Os comentadores identificam múltiplas fontes de ambivalência neste ponto. Primeiro, o teste era permitido? A lei judaica proíbe confiar em “presságios” (Deut. 18:10 , Hullin 95b), e Eliezer pode ter sentido que seu teste era perigosamente próximo da prática pagã. [2] O próprio Ibn Caspi sugere que Eliezer não tinha certeza se um único teste como esse era fundamento suficiente para basear uma decisão tão crucial quanto a escolha de uma parceira para Yitzchak.


O Midrash (Bereshit Rabbah 59:9), no entanto, oferece a explicação mais esclarecedora. Eliezer tinha sentimentos contraditórios não sobre o teste em si, mas sobre toda a missão. Até aquele momento, diz o Midrash, ele estava "sentado ponderando se sua própria filha era adequada para Yitzchak". Em outras palavras, ele esperava que, de uma forma ou de outra, a herança de Avraham passasse para ele.


Há duas pistas que levaram o Midrash a essa hipótese. A primeira é que, quando Avraham falou pela primeira vez com D-s sobre sua esterilidade, ele disse: "Meu Senhor D-s, que me terás dado se eu permanecer sem filhos e aquele que herdará a minha propriedade for Eliézer de Damasco?" (Gênesis 15:2). Eliézer, naquele momento, tinha motivos para esperar ser o herdeiro de Avraham.


A segunda questão é que, quando Avraham o encarrega da missão de encontrar uma esposa para seu filho, ele responde: "E se [ ulai ] a mulher não quiser voltar comigo para esta terra?". Como observa Ibn Ezra (Comentário ao Salmo 116:16), a palavra ulai nem sempre é neutra. Às vezes, significa uma eventualidade indesejada, mas outras vezes indica um evento desejado. O "e se" de Eliezer pode ter sido uma expressão inconsciente do fato de que, com metade da sua mente, ele desejava que a missão falhasse. Isso o colocaria, mais uma vez, ou sua filha, na posição de herdeiro de Avraham.


Foi, portanto, com sentimentos profundamente contraditórios que ele orou para que aparecesse uma mulher que fosse a escolhida por D-s para ser a esposa de Yitzchak.

Ainda mais dramático é o caso de Yosef. Filho de um pastor (Jacó), quase o caçula, odiado pelos irmãos e vendido como escravo por eles, ele se vê no Egito como chefe de família de um dos cidadãos mais proeminentes, Potifar. Sozinho com a esposa de seu senhor, ele se vê assediado por ela:

Ora, Yosef era bem-apessoado e bonito, e depois de algum tempo a esposa de seu senhor pôs os olhos nele. “Deite-se comigo”, disse ela. Mas ele recusou… Gênesis 39:6-8

Sobre a frase 'ele se recusou', a tradição estabeleceu um shalshelet.

Podemos imaginar o conflito na mente de Yosef naquele momento. Por um lado, todo o seu senso moral dizia "Não". Seria uma traição a tudo o que sua família representava: sua ética de decoro sexual e seu forte senso de identidade como filhos da aliança. Seria também, como o próprio Yosef diz, uma traição ao próprio Potifar: "Comigo no comando, meu senhor não se preocupa com nada nesta casa; tudo o que ele possui, confiou aos meus cuidados. Ninguém é maior nesta casa do que eu. Meu senhor não me negou nada, a não ser você, porque você é sua esposa. Como, então, eu poderia cometer tamanha maldade e pecar contra D-s?"


E, no entanto, a tentação devia ser intensa. Ele estava em uma civilização urbana de um tipo que nunca tinha visto antes. Era sua primeira experiência com “luzes brilhantes, cidade grande”. Estava longe de casa. Ninguém podia vê-lo. Depois de toda a hostilidade que sofrera na infância, ser assediado pela esposa de Potifar devia ser lisonjeiro e sedutor ao mesmo tempo. Era um momento decisivo. Escravo, sem nenhuma esperança realista de resgate, tornar-se-ia ele um egípcio, com toda a liberalidade sexual que isso implicava? Ou permaneceria fiel ao seu passado, à sua consciência, à sua identidade?


O Talmud oferece uma descrição vívida de seu tormento interior:

A imagem de seu pai apareceu a ele na janela e disse: “Yosef, os nomes de seus irmãos serão inscritos nas pedras do éfode [do Sumo Sacerdote], e você estará entre eles. Você quer que seu nome seja apagado? Você quer ser chamado de adúltero?”

O shalshelet é um comentário elegante sobre a crise de consciência de Yosef. No final, Yosef se recusa, mas não sem uma profunda luta interior.

O que nos leva ao terceiro caso (cronologicamente o primeiro) em Vayera. Aqui o conflito é explícito. Dois dos anjos que visitaram Avraham chegam a Lot em Sodoma. Eles lhe dizem que a cidade e seus habitantes estão prestes a ser destruídos. Ele e sua família devem partir imediatamente. Mas Lot hesita:

Os visitantes disseram a Lot: “Quem mais você tem aqui — genros, filhos, filhas ou qualquer outra pessoa na cidade? Tire-os daqui, porque vamos destruir este lugar. Tão grande é o clamor contra eles diante do Senhor, que Ele nos enviou para destruí-lo.”
Lot saiu e falou com seus genros, os homens que estavam prometidos em casamento às suas filhas, e disse-lhes: “Levantem-se e saiam deste lugar! O Senhor vai destruir a cidade!” Mas seus genros acharam-no ridículo.
Ao amanhecer, os anjos apressaram Lot, dizendo: “Levante-se! Leve sua mulher e suas duas filhas para cá, ou vocês serão destruídos em meio ao pecado da cidade.” Mesmo assim, ele hesitou. Então, os homens o agarraram, a sua mulher e suas duas filhas, pela mão, e os levaram em segurança para fora da cidade, pois o Senhor teve misericórdia dele. Gênesis 19:12-16

Sobre 'ele hesitou' há um shalshelet.

A hesitação de Lot atinge o âmago de sua identidade. Recordamos que, anteriormente, quando ele e Avraham concordaram em se separar para pôr fim à disputa entre seus pastores, "Lot levantou os olhos e viu que toda a planície do Jordão, até Zoar, era bem irrigada. Era como o jardim do Senhor... Então Lot escolheu para si toda a planície do Jordão. E partiu para o oriente..." (Gênesis 13:10-11). Ele escolheu estabelecer-se em Sodoma, apesar de, como afirma a Torá, seus habitantes serem, naquele momento, "maus e grandes pecadores contra o Senhor" (Gênesis 13:13).


Quando vemos Lot no capítulo 19, ele e sua família já estão profundamente integrados à cultura local. Suas filhas estão prometidas em casamento a homens da região. Sobre a frase no início do capítulo, "Lot estava sentado no portão da cidade", os Sábios disseram que "ele acabara de ser nomeado juiz" — o portão da cidade sendo o local onde, nos tempos abraâmicos, os juízes e anciãos se reuniam para resolver disputas. Lot não se vê, como Avraham, como um "estrangeiro e residente temporário". Ele decidiu criar raízes no vale do Jordão e nas cidades da planície. É ali que ele pertence, a ponto de os visitantes terem que arrastá-lo fisicamente para longe dali.


O sentimento de pertencimento de Lot, contudo, é fruto de ingenuidade ou autoengano. O texto deixa isso claro em três pontos. O primeiro é a tentativa de abuso sexual contra os visitantes de Lot (Gênesis 19:4-5). Evidentemente, o povo de Sodoma não recebia bem os estrangeiros. Este é o primeiro indício de que talvez Lot também seja, aos olhos deles, um estrangeiro. De fato, ele é. A Torá, em sua segunda indicação, é brutalmente explícita:

“Saiam da nossa frente”, responderam eles [a Lot, quando ele implorou que respeitassem seus visitantes. Então disseram:] “Este sujeito veio para cá como imigrante e agora está se fazendo de juiz! Vamos tratá-lo pior do que a eles.” Gênesis 19:9

O terceiro momento é quando ele diz aos maridos de suas filhas que eles precisam fugir porque a cidade está prestes a ser destruída: "Mas seus genros o acharam ridículo" (Gênesis 19:14). A elaborada nova identidade de Lot está prestes a desmoronar ao seu redor — não apenas por causa da destruição iminente, mas porque ele descobriu, em sucessivos golpes, que não era aceito naquele lugar. Sodoma odeia estrangeiros, ainda consideram Lot um "migrante", e seus genros o veem como um tolo.


Apesar disso, ele hesita. Investiu muito de si no projeto de construir seu lar entre o povo da planície. Ele é um excelente exemplo do que Leon Festinger chamou de "dissonância cognitiva". Segundo Festinger, a necessidade de evitar a dissonância é fundamental para os seres humanos, caso contrário, cria uma tensão insuportável. É essa tensão que Lot não consegue resolver — e que é sinalizada pelo shalshelet sobre "ele hesitou". Era a questão existencial derradeira: "Quem sou eu?". Tendo se esforçado tanto para se tornar um deles, ele acha quase impossível se desvencilhar. (Tragicamente, havia muitos judeus na Alemanha e na Áustria na década de 1930 que se recusaram a partir porque não queriam ou não podiam acreditar nas evidências ao seu redor, de que Hitler falava sério em suas ameaças de exterminar os judeus).


Aliás, a teoria de Festinger também explica o comportamento da mulher de Lot, que "olhou para trás", contrariando a instrução explícita dos anjos, "e foi transformada numa estátua de sal". Festinger chamou essa síndrome de "dissonância pós-decisão". Ele previu que quanto mais importante a questão, quanto mais a pessoa adiar a decisão e quanto mais difícil for revertê-la, mais ela se angustiará sobre se fez a escolha certa. Ela terá dúvidas; precisará de reafirmação; "olhará para trás".


A questão da hesitação de Lot não é um mero detalhe do texto bíblico. É, em certo sentido, a história do judeu moderno. Ao ingressarem na sociedade pela primeira vez e, ainda assim, se depararem com o antissemitismo, seja ele explícito ou velado, muitos judeus europeus do século XIX tornaram-se ambivalentes em relação à sua identidade. Tentaram escondê-la e assimilar-se. Tornaram-se marranos seculares. Não funcionou. Quanto mais se esforçavam para ser como os outros, mais visíveis se tornavam e mais forte se tornava o antissemitismo. Eles próprios perderam muito nesse processo — não apenas sua herança judaica, mas também a simples capacidade de reconhecer e se orgulhar de quem eram.


As vidas de Lot e Avraham exemplificam para sempre o contraste entre a ambivalência e a segurança que advém de saber quem se é e porquê. Lot, que tentou tornar-se outra pessoa, viu-se considerado pelos seus vizinhos como um estrangeiro, um arrivista, um intruso, um oportunista. Para os seus próprios genros, era motivo de riso. Avraham viveu uma vida diferente. Lutou numa guerra em nome dos seus vizinhos. Orou por eles. Mas viveu à parte, fiel à sua fé, à sua missão e à sua aliança com D-s. O que pensavam dele? Logo no início da sedra seguinte – Chayei Sarah – os hititas chamam-lhe “um príncipe de D-s no meio de nós” (Gênesis 23:6).


Essa equação não mudou. Não judeus respeitam judeus que respeitam o judaísmo. Eles se envergonham de judeus que se envergonham do judaísmo. Nunca seja ambivalente sobre quem você é e o que você representa.

 

 

NOTAS [1] A nota shalshelet aparece uma quarta vez na Torá — em Levítico 8:23 , onde seu significado é menos aparente — mas nos concentraremos na implicação das três ocorrências em Sefer Bereishit. [2] Ran para Hullin 95b, no entanto, afirma que a conduta de Eliezer era legítima; ele não buscava um presságio, mas um sinal do caráter da mulher.

 

Texto original “The Music of Ambivalence” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l



 
 

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page