top of page

NOACH

13 de out.
9 min de leitura

Atualizado: 14 de out.

NOACH

Uma História do Céu e da Terra

Situada entre a pré-história da humanidade como um todo e a aliança específica com Avraham, a história da Torre de Babel é um dos pontos de virada da narrativa bíblica, central para sua visão do que pode dar errado nas civilizações e sociedades.


A própria história — contada em apenas nove versos — é uma obra-prima concisa de virtuosismo literário e filosófico. O primeiro ponto a destacar é a excepcional precisão de seu contexto histórico. A torre — ou zigurate — era o grande símbolo das antigas cidades-estado mesopotâmicas do vale inferior do Tigre e do Eufrates, o berço da civilização. Foi ali que os seres humanos se estabeleceram pela primeira vez, desenvolveram a agricultura e construíram cidades.


Como a Torá deixa claro, com uma atenção incomum ao que parece ser um fato periférico, uma das grandes descobertas da Mesopotâmia (juntamente com a roda, o arco e o calendário) foi a capacidade de fabricar materiais de construção, especialmente tijolos, feitos despejando argila em moldes, secando-os ao sol e, por fim, queimando-os em fornos. Isso possibilitou a construção de edifícios em maior escala e atingindo alturas maiores do que antes. Disso surgiu o zigurate, um edifício escalonado de muitos andares, que passou a ter um profundo significado religioso.


Essencialmente, essas torres antigas — das quais foram descobertos vestígios de pelo menos trinta — eram “montanhas sagradas” construídas pelo homem, sendo a montanha o local onde o céu e a terra se encontravam de forma mais visível. Inscrições em várias dessas construções, decifradas por arqueólogos, referem-se, assim como a Torá, à ideia de que seu topo “alcança o céu”. A maior delas — o grande zigurate da Babilônia, mencionado na Torá — era uma estrutura de sete andares, com 91 metros de altura, sobre uma base de dimensões semelhantes (mais detalhes podem ser encontrados em Nahum Sarna, Compreendendo o Gênesis).


A história de Babel não só é historicamente precisa, como também está repleta de recursos literários: inversões, jogos de palavras, ironias e trocadilhos. Um dos mais magistrais é o fato de as duas palavras-chave,  lvn, “tijolo”, e  nvl, “confundir”, serem inversões precisas uma da outra. Como tantas vezes acontece na Torá, a técnica literária está intimamente ligada à mensagem moral ou espiritual que a Torá deseja transmitir. Neste caso, trata-se do próprio fenômeno da inversão. Os resultados do comportamento humano são frequentemente o oposto do que se pretendia. Os construtores queriam concentrar a humanidade num só lugar (“Vamos construir uma cidade... e não sejamos espalhados por toda a face da terra”). O resultado foi que eles foram dispersos (“dali o Senhor os dispersou por toda a face da terra”). Eles queriam “fazer um nome” para si mesmos, e conseguiram, mas o nome que criaram – Babel – tornou-se um símbolo eterno de confusão.


O orgulho deles residia na recém-adquirida capacidade tecnológica de construir edifícios de uma grandiosidade sem precedentes. Eles não perceberam (a mensagem implícita nos versículos iniciais da Torá) que o maior poder criativo é a linguagem (“E disse D-s... e houve”). Não foi um problema técnico que os levou a abandonar o projeto, mas a perda da capacidade de comunicação. O que é sagrado para a Torá não é o poder, mas o uso que fazemos dele, e isso está intrinsecamente ligado à linguagem – o meio pelo qual formulamos nossos ideais, construímos possibilidades imaginativas e convidamos outros a se unirem a nós para realizá-las. A palavra precede a obra.


Mas qual foi o pecado dos construtores? A narrativa sinaliza isso, novamente, por meio de uma série de pistas verbais. A primeira é a frase com a qual o episódio começa e termina, kol ha-aretz, “toda a terra”. Começa com: “Toda a terra falava a mesma língua” (Gênesis 11:1) e termina com: “Dali o Senhor os dispersou por toda a face da terra” (Gênesis 11:9). A frase kol ha-aretz aparece cinco vezes nos nove versículos: todas as repetições de três, cinco e, especialmente, sete vezes em uma passagem bíblica sinalizam a presença de um tema central. Um recurso de enquadramento desse tipo é altamente significativo.


O segundo é o fonema (uma unidade básica de som) sh-m, seja como sham, “lá”, ou  shem, “nome”. Este aparece sete vezes na passagem. Está claramente ligado à palavra  shamayim , “céu” – o lugar que os construtores tentaram alcançar ao construir a torre. Os elementos temáticos da narrativa são, portanto, claros. Esta é uma história sobre o céu e a terra – mas de que maneira? Para entender o ponto em questão, devemos retornar ao capítulo inicial de Gênesis e à sua descrição da criação.


Duas palavras nesse relato são decisivas. A primeira é tov, “bom”, que aparece sete vezes. D-s diz: “Haja”, há, e D-s vê “que é bom”. A criação em Gênesis 1 não trata primordialmente do poder de D-s, mas da bondade de D-s e do universo que Ele criou. Em contexto histórico, essa é uma afirmação extraordinária. Em sua maioria, os antigos viam o mundo como um lugar perigoso e ameaçador, repleto de perigos, desastres, fomes e inundações. Não havia um significado abrangente para nada disso. Era o resultado de forças conflitantes, personificadas como conflitos entre os deuses. A religião era vista ou como uma tentativa de afirmar o poder humano sobre os elementos por meio da magia e do mito, ou como uma fuga mística do mundo para um nirvana particular da alma. Contra isso, o judaísmo fez a surpreendente afirmação de que o mundo é bom. É inteligível. É o resultado não de colisões cegas e mutações aleatórias, mas de uma única vontade criadora. Só isso já basta para destacar o judaísmo como a mais esperançosa das religiões do mundo.


Existe, no entanto, outra palavra-chave, a raiz bdl, que significa “separar”, “distinguir”, “dividir”. Ela aparece cinco vezes em Gênesis 1. A bondade do universo é, em si, uma questão de ordem, limites e distinções. D-s separa os diferentes domínios (dia 1, luz e trevas; dia 2, águas superiores e inferiores; dia 3, terra e mar) e preenche cada um com seus objetos ou formas de vida apropriados (dia 4, sol e lua; dia 5, pássaros e peixes; dia 6, animais terrestres e humanidade). Tão importante era essa ideia para o judaísmo que temos uma cerimônia especial, a Havdalá, para marcar o fim do Shabat e o início de cada ciclo dos “seis dias da criação”. Assim como D-s, iniciamos a criação com a Havdalá: estabelecendo, observando e consagrando as distinções.


Isso também é fundamental para a visão de mundo judaica. A bondade é ordem; o mal é desordem, um ato, pessoa ou entidade no lugar errado. A palavra chet, pecado, vem de um verbo que significa “errar o alvo”. A palavra averah, assim como seu equivalente em português “transgressão”, significa cruzar uma fronteira, entrar em território proibido. Muitos dos chukim ou “estatutos” do judaísmo tratam de incutir respeito pela ordem inerente do universo – e, portanto, não misturar leite (vida) e carne (morte), lã (um produto animal) e linho (um produto vegetal) ou semear um campo com “tipos mistos” de sementes.

A própria criação é vista como a lenta emergência da ordem a partir do caos. Isso, como aponta o físico Gerald Schroeder (em  Gênesis e o Big Bang), está implícito nas palavras hebraicas erev e boker, “E era tarde (erev) e era manhã (boker)”. Erev, em hebraico, significa uma mistura indiferenciada de elementos. Boker vem de uma raiz que significa “refletir, contemplar, buscar clareza”. Muitos trabalhos recentes em física, biologia e cosmologia convergiram para a descoberta de que o nascimento de estrelas, planetas e da própria vida é uma questão da lenta emergência de sistemas de ordem cada vez mais complexos, nadando, por assim dizer, contra a maré da entropia.


Um universo ordenado é um universo pacífico no qual cada forma de ser, inanimado, animado e humano, tem seu lugar próprio. Violência, injustiça e conflito são formas de desordem – uma falha em respeitar a integridade de cada forma de vida ou (no caso da humanidade, onde “cada vida é como um universo”) de cada pessoa. Esse era o estado do universo antes do Dilúvio, quando “toda a carne havia corrompido o seu caminho na terra”.

Essa não era uma ideia abstrata. O mundo dos mitos, contra o qual o judaísmo protesta constantemente, era um mundo onde as fronteiras não eram respeitadas. Existiam seres humanos semelhantes a deuses e deuses semelhantes a seres humanos. Existiam estranhos híbridos mitológicos — como a esfinge, metade humana, metade animal. O êxtase religioso era frequentemente acompanhado por uma quebra cerimonial de fronteiras de diversas maneiras. Para a mentalidade judaica, isso é paganismo, e nunca é moralmente neutro. D-s cria a ordem; o homem cria o caos; e o resultado é inevitavelmente destrutivo.


A fronteira mais fundamental é estabelecida na primeira frase da Torá: a que separa o “céu” da “terra”. Nunca antes ou depois (exceto entre religiões ou culturas influenciadas pelo judaísmo) D-s foi concebido de uma maneira tão radicalmente transcendente. D-s não deve ser identificado com nada na Terra. “Os céus são os céus do Senhor”, diz o Salmista, “mas a terra Ele a deu ao homem”. Essa divisão ontológica é fundamental. D-s é D-s; a humanidade é a humanidade. Não pode haver qualquer confusão entre esses limites.


Esse foi o pecado dos construtores da torre. Sua aspiração (de “alcançar o céu”) era risível, e de fato a Torá a ridiculariza. Eles pensam que sua construção – com noventa metros de altura – alcançou o céu, enquanto D-s precisa “descer” para contemplá-la (em geral, o que faz D-s rir na Torá são as pretensões dos seres humanos quando se consideram semelhantes aos deuses). Contudo, era pior do que risível. O Netziv (Rabino Naftali Zvi Yehudah Berlin, 1817-1893), escrevendo na Rússia czarista e prevendo profeticamente os piores excessos do comunismo, vê Babel como o primeiro totalitarismo do mundo, no qual, para preservar as massas como uma única entidade, toda a liberdade de expressão é suprimida (esse, para ele, é o significado de “o mundo inteiro tinha uma só língua e uma fala unificada”).


Embriagados por sua proeza tecnológica, os construtores de Babel acreditavam ter se tornado como deuses e que agora poderiam construir sua própria cosmópolis, seu universo em miniatura criado pelo homem. Não contentes com a Terra, queriam construir uma morada no céu. É um erro que muitas civilizações cometeram, e o resultado é a catástrofe.


Nos tempos modernos, a recriação da Torre de Babel está mais claramente associada ao nome de Nietzsche (1844-1890). Durante os últimos dez anos de sua vida, ele sofreu de insanidade clínica, mas pouco antes de seu colapso final teve uma visão de pesadelo que se tornou justamente famosa:

Vocês não ouviram falar daquele louco que acendeu uma lanterna nas primeiras horas da manhã, correu para a praça do mercado e gritou incessantemente: “Procuro a D-s! Procuro a D-s!”... “Onde está D-s?”, ele gritava. “Eu lhes direi. Nós O matamos – você e eu. Todos nós somos seus assassinos... D-s está morto. D-s permanece morto. E nós o matamos. Como nós, os assassinos de todos os assassinos, podemos nos consolar? O que havia de mais sagrado e poderoso no mundo sangrou até a morte sob nossas lâminas. Quem enxugará esse sangue de nós?... A grandeza desse feito não é grande demais para nós? Não devemos nos tornar deuses simplesmente para parecermos dignos dEle?”

Como George Steiner salientou (em seu livro " No Castelo do Barba Azul "), houve menos de três quartos de século entre Nietzsche e o Holocausto, entre sua visão do assassinato de D-s e a tentativa deliberada e sistemática de assassinar o "povo de D-s" (Hitler chamou a consciência de "uma invenção judaica").


Quando os seres humanos tentam se tornar mais do que humanos, rapidamente se tornam menos do que humanos. Como apontou Lord Acton, até mesmo a grande cidade-estado de Atenas, que produziu Sócrates, Platão e Aristóteles, se autodestruiu quando “a posse de poder ilimitado, que corrói a consciência, endurece o coração e confunde o entendimento dos monarcas, exerceu sua influência desmoralizante”. O que deu errado em Atenas, escreve ele, foi a crença de que “não há lei superior à do Estado – e o legislador está acima da lei”.


Somente quando D-s é D-s é que o homem pode ser homem. Isso significa manter o céu e a terra distintos, organizando esta última apenas sob a soberania consciente do primeiro. Sem isso, pouco impede que os seres humanos sacrifiquem muitos em prol de poucos, ou poucos em prol de muitos. Somente o respeito pela integridade da criação impede que os seres humanos se destruam. A humildade diante da ordem Divina é nossa última – e melhor – salvaguarda contra a arrogância da humanidade em relação ao poder sem restrições, à força sem direito. Babel foi a primeira civilização, mas infelizmente não a última, a começar com um sonho de utopia e terminar em um pesadelo infernal. Um mundo de tov, o bem, é um mundo de havdallah, de fronteiras e limites. Aqueles que cruzam essas fronteiras e transgridem esses limites criam um nome para si mesmos, mas o nome que criam é Babel, que significa caos, confusão e a perda da ordem que é uma condição essencial tanto da natureza (o mundo que D-s cria) quanto da cultura (o mundo que criamos).

 

 

Texto original “A Story of Heaven and Earth” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l



 
 

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page