top of page

YTRO

  • 3 de fev.
  • 5 min de leitura

YTRO

A Política da Revelação

A revelação no Monte Sinai – o episódio central não apenas da  parashá  de Ytro, mas do judaísmo como um todo – foi singular na história religiosa da humanidade. Outras religiões (cristianismo e islamismo) alegaram ser religiões de revelação, mas em ambos os casos a revelação da qual falavam era dirigida a um indivíduo (“o filho de D-s”, “o profeta de D-s”). Somente no judaísmo a autorrevelação de D-s não foi dirigida a um indivíduo (um profeta) ou a um grupo (os anciãos), mas a toda uma nação, jovens e idosos, homens, mulheres e crianças, justos e ainda não justos.


Desde o início, o povo de Israel sabia que algo sem precedentes havia acontecido no Sinai. Como Moisés disse, quarenta anos depois:

Perguntem agora sobre os tempos mais remotos, muito antes da sua própria existência, desde o dia em que D-s criou o ser humano na Terra; perguntem de uma extremidade do céu à outra: Já aconteceu algo tão grandioso como isto? Já alguém ouviu falar de algo semelhante? Já algum povo ouviu a voz de D-s falando do meio do fogo, como vocês ouviram, e sobreviveu?... Isso foi mostrado a vocês, para que soubessem que o Senhor é D-s; além dele, não há nenhum outro. Do céu Ele lhes fez ouvir a sua voz…  Deuteronômio 4:32-35

Para os grandes pensadores judeus da Idade Média, o significado era primordialmente epistemológico. Criava certeza e eliminava dúvidas. A autenticidade de uma revelação vivenciada por uma pessoa podia ser questionada. Uma testemunhada por milhões, não. D-s revelava Sua presença publicamente para dissipar qualquer suspeita de que a presença sentida e a voz ouvida não fossem genuínas.


Contudo, ao analisarmos a história da humanidade desde então, fica claro que havia também outro significado – um que não se relacionava com o conhecimento religioso, mas com a política. No Sinai, um novo tipo de nação estava sendo formado, um novo tipo de sociedade – uma que seria a antítese do Egito, onde poucos detinham o poder e muitos eram escravizados. No Sinai, os filhos de Israel deixaram de ser um grupo de indivíduos e se tornaram, pela primeira vez, um corpo político: uma nação de cidadãos sob a soberania de D-s, cuja constituição escrita era a Torá e cuja missão era ser “um reino de sacerdotes e uma nação santa”.


Ainda hoje, obras de referência sobre a história do pensamento político remontam sua origem, por meio de Marx, Rousseau e Hobbes, à República de Platão, à Política de Aristóteles e à cidade-estado grega (Atenas, em particular) do século IV a.C. Isso é um erro grave. É certo que palavras como "democracia" (governo do povo) têm origem grega. Os gregos eram hábeis em substantivos abstratos e pensamento sistemático. Contudo, se observarmos o "nascimento da modernidade" – figuras como Milton, Hobbes e Locke na Inglaterra, e os pais fundadores dos Estados Unidos – o livro com o qual dialogavam não era Platão ou Aristóteles, mas a Bíblia Hebraica. Hobbes a cita 657 vezes apenas em Leviatã. Muito antes dos filósofos gregos, e de forma muito mais profunda, no Monte Sinai, nasceu o conceito de uma sociedade livre.


Três aspectos daquele momento se provariam cruciais. O primeiro é que, muito antes de Israel entrar na terra prometida e adquirir seu próprio sistema de governo (primeiro por juízes, depois por reis), eles haviam firmado uma aliança abrangente com D-s. Essa aliança (Brit Sinai) estabelecia limites morais ao exercício do poder. O código que chamamos de Torá estabeleceu, pela primeira vez, a primazia do direito sobre a força. Qualquer rei que agisse contrariamente à Torá estaria agindo ultra vires e poderia ser contestado. Este é o fato mais importante sobre a política bíblica.


A democracia no modelo grego sempre teve uma fraqueza fatal. Alexis de Tocqueville e John Stuart Mill a chamaram de “a tirania da maioria”. J.L. Talmon a denominou “democracia totalitária”. O governo da maioria não garante os direitos das minorias. Como Lord Acton observou acertadamente, foi isso que levou à queda de Atenas: “Não havia lei superior à do Estado. O legislador estava acima da lei”. No judaísmo, em contraste, os profetas tinham o dever de desafiar a autoridade do rei caso este agisse contra os termos da Torá. Os indivíduos tinham o poder de desobedecer ordens ilegais ou imorais. Só por isso, a aliança no Sinai merece ser vista como o maior passo na longa jornada rumo a uma sociedade livre.


O segundo elemento fundamental reside no prólogo da aliança. D-s diz a Moisés:

“Assim dirás à casa de Yaakov, assim anunciarás aos filhos de Israel: ‘Vós mesmos vistes o que Eu fiz aos egípcios: como vos levantei sobre asas de águia e vos trouxe a Mim. Agora, se ouvirdes fielmente a Minha voz e guardardes a Minha aliança, então sereis o Meu tesouro entre todos os povos, ainda que toda a terra Me pertença. Sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.’ Estas são as palavras que devereis falar aos israelitas.”  Êxodo 19:3-6

Moisés conta isso ao povo, que responde:

“Faremos tudo o que o Senhor ordenou.”  Êxodo 19:8

Qual é o significado dessa troca? Significa que, até que o povo manifestasse seu consentimento, a revelação não poderia prosseguir. Não existe governo legítimo sem o consentimento dos governados, mesmo que o governante seja o Criador do céu e da terra. Conheço poucas ideias mais radicais. Certamente, houve sábios no período talmúdico que questionaram se a aceitação da aliança no Sinai foi completamente livre. Contudo, no cerne do judaísmo está a ideia – muito à frente de seu tempo, e nem sempre plenamente realizada – de que o D-s livre deseja a adoração livre de seres humanos livres. D-s, diziam os rabinos, não age tiranicamente com suas criaturas.


A terceira ideia, igualmente à frente de seu tempo, era que os parceiros da aliança seriam “todo o povo” – homens, mulheres e crianças. Esse fato é enfatizado posteriormente na Torá, na mitsvá de Hakhel, a cerimônia septenal de renovação da aliança. A Torá afirma especificamente que todo o povo deve ser reunido para essa cerimônia, “homens, mulheres e crianças”. Mil anos depois, quando Atenas experimentou a democracia, apenas uma parcela limitada da sociedade tinha direitos políticos. Mulheres, crianças, escravos e estrangeiros eram excluídos. Na Grã-Bretanha, as mulheres só conquistaram o direito ao voto no século XX. Segundo os sábios, quando D-s estava prestes a entregar a Torá no Sinai, Ele disse a Moisés para consultar primeiro as mulheres e só depois os homens (“isto é o que você dirá à casa de Yaakov” – isto significa, às mulheres). A Torá, a “constituição da liberdade” de Israel, inclui a todos. É o primeiro momento, em milhares de anos, em que a cidadania é concebida como universal.


Há muito mais a ser dito sobre a teoria política da Torá (veja meus livros  A Política da Esperança,  A Dignidade da Diferença e  A Hagadá do Rabino Chefe,  bem como as importantes obras de Daniel Elazar e Michael Walzer). Mas uma coisa é certa: com a revelação no Sinai, algo sem precedentes surgiu no horizonte da humanidade. Levaria séculos, milênios, para que suas implicações fossem plenamente compreendidas. Abraham Lincoln expressou isso da melhor forma quando falou de “uma nova nação, concebida na liberdade e dedicada à proposição de que todos os homens são criados iguais”. No Sinai, nasceu a política da liberdade.

 

 

Texto original “The Politics of Revelation” por Rabbi Lord Jonathan Sacks zt’l



 
 

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page